--Aquelle silencio...--dizia frei Antonio, consultando a consciencia, que lhe respondia de prompto--aquelle silencio... é a falta de palavras com que possamos fazer sentir aos outros uma idéa, que só a Divindade nos compreende... As horas de tua filha não são empregadas como d'antes na oração, no estudo e no trabalho?

--São, de certo, e mais continuadas na oração. D'antes orava em commum. Agora, encontramo'-la na hora do descanço, ajoelhada no sanctuario; mas vejo-a perturbada, quando reza. Ha lagrimas, e até aqui só lhe viamos o sorriso de consolação... Parece que n'aquelle orar, ha a supplica do perdão para o crime que a accusa.

--É impossivel!--exclamou o padre, energicamente commovido.--É impossivel... não quero que em minha sobrinha se esconda um crime... uma falta! É uma injuria, meu irmão! Peccaste contra a innocentinha, e feriste-me a mim, que tenho formado aquelle coração, que Deus me confiou para crear-lhe um anjo.

--Meu irmão... não te afflijas... isto em mim é um receio.

A interrupção do coronel era tardia para evitar a exaltação nervosa do padre. As lagrimas davam-lhe ao rosto uma religiosa magestade. Assombrava-o o terror de uma conjectura cruel, como se visse caír á voragem do vicio a virtude, que elle, com sua propria mão, collocára em throno tão perto do céo. O coronel, tambem commovido, sentia-se nobremente exaltado pelo modesto orgulho de ter uma filha, cuja innocencia merecia tão fervorosa defesa. Abraçando seu irmão, parecia pedir-lhe carinhosamente desculpa do zelo paternal, que lhe inspirara receios por aquella que pertencia menos a seu pae, que a seu mestre. O lance era sublime; e o sentimento de ambos, vibrado na mesma corda, e acalorada pelo mesmo amor, elevava-se até Deus em oração de graças por Maria, anjo que lhes fôra dado como galardão á paciencia de muitos soffrimentos.

IX

Quem poderia consolar a triste nas suas amarguras?

Quem póde cá da terra dissipar a nuvem, que escurece a face de uma estrella?

Quem póde, ao descair da tarde, reverdecer a corolla da flor desbotada pelas sombras da noite?

O futuro é o presente perpetuo da Divindade. Mas o espirito que se enlucta, sem lamentar a viuvez de illusões perdidas, veste-se de negro, como a virgem violentada a desposar no altar das lagrimas uma tribulação futura. É o presentimento.