Para as almas provadas em supplicios immerecidos, mas secretamente providenciaes, o presentimento não é uma palavra sem significação.
O cantico de Maria, cadenciado pelas quadras do seu hymno, era a unica resposta, que ella podia dar se lhe perguntassem:
--Anjo, porque soffres?
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Decorreram algumas horas, e Fr. Antonio não podia demorar a sua visita. Alvaro da Silveira, fiel a seus habitos, deveria despertar ao meio dia. O padre retirou com uma saudade profunda, e uma dôr nova. A ultima afflicção de um justo quer Deus que seja a agonia do pensamento. A vida n'elle é uma cadeia de pesares, que tem no esquife o ultimo élo. Fr. Antonio, feliz com esta certeza, poderia fraquear na primeira lucta com o soffrimento, mas a sua queda era sempre de joelhos aos pés da cruz. E esta foi a sua postura, apenas entrou no quarto que lhe fôra dado em casa de Silveira.
A oração foi-lhe interrompida pelo toque da campainha. Esse som, que provocava pragas aos servos da casa, como signal de estar acordado o tigre familiar, foi para frei Antonio um despertador da oração em favor d'aquelle, que tão longe de Deus, sem um decreto do céo, mal poderia ser lá encaminhado pela debil mão de um peccador. E, terminada a oração, o padre chamou o creado, que saía do quarto de Alvaro, e mandou a s. exc.a pedir licença para fazer-lhe companhia ao almoço. A resposta, qual era de esperar, deferiu a humilde supplica, e Frei Antonio, insinuante de brandura e civilidade, apresentou-se, pela terceira vez, ao seu educando.
A face d'este homem tinha uma alegre severidade, que não podia fitar-se sem respeitosa sympathia. Alvaro da Silveira ao ve'-lo sentia uma impressão extraordinaria, como não sentira na presença d'algum homem celebre em valentia, em talento, em devassidão, em prodigalidades, e em riqueza. A distincção da virtude ou do fanatismo, como elle dizia da religião, parecia-lhe uma cousa nunca vista na boa sociedade! Para não deixar-se vencer pelo panico da religião, Alvaro da Silveira dava-se uma explicação muito natural d'aquelle phenomeno: era a falta de convivencia com a classe dos padres.
Na verdade o jesuitismo e a hypocrisia pelos seus abusos interesseiros, tornando a religião instrumento innocente de uma politica facciosa, tem dado causa a todos os homens de consciencia conspirarem a expulsa'-los como vendilhões do templo. Essa a razão por que os falsos religiosos blasphemam quando presentem que uma minima centelha da razão illumina o campo da religião que elles pretendem pôr em trevas. Todo o homem sensato e sãmente religioso soffre uma intima dôr quando os falsos religiosos impellem os ignorantes, e alguns immorigerados como Alvaro da Silveira, a irem lançar-se na impiedade, fugindo da hypocrisia, que elles não sabem discernir da purissima religião do crucificado.
Mas, a seu pesar, a entrada de Fr. Antonio, e as palavras urbanas, e poucas, com que o saudára, continuavam a impressiona'-lo.
--Dormiu v. ex.a socegadamente, não é assim?--perguntou o padre.