--Deliciosamente--respondeu Alvaro, apertando cortezmente a mão do sacerdote.--E v. s.a como se deu no seu novo quarto?
--O melhor possivel. Um egresso, affeito a dormir na casa de um lavrador, acharia boa pousada em todos os logares debaixo do céo. Uma boa cama não abona sempre uma noite deliciosa ao que se deita n'ella. O melhor gasalhado, senhor, é o que nos dá a consciencia quando francamente se abre para receber-nos, e velar-nos o somno com o anjo da paz. Deus defenda v. ex.a de revolver-se um dia nos espinhos, que perturbam o somno do mau, deitado em leito de cortinas douradas.
--Então v. s.a--tornou Alvaro--tem andado por casa de lavradores? Eu cuidei que os frades eram ricos, e amigos das commodidades. Pelo menos é o que se diz por ahi...
--Os frades, senhor, não só eram ricos, mas tambem opulentos; procuravam todas as commodidades, gosavam todas as delicias, todos os prazeres que podem ser desfructados na vida material da terra. A ociosidade e a riqueza perverteu-os. As excepções choravam tal aberração. Como que olvidados do céo mergulharam-se n'uma politica inconveniente e injusta. Em pena de Talião, a politica por elles hostilisada, por todos os meios, tão obstinadamente, puniu-os expulsando-os das casas que não deviam mais pertencer-lhes.
Estava na mesa o taboleiro do almoço. Fr. Antonio pedia licença para servir o discipulo.
--Então v. s.a não almoça?--perguntou Alvaro, offerecendo ao hospede uma chavena, não recebida.
--Almocei já, sr. Silveira.
--Com o pae, não é verdade?
--Não, senhor: com a minha familia.
--Então v. s.a tem familia em Lisboa?