--Nasci em Lisboa, e tenho uma familia numerosa.

--Naturalmente pobre...

--Naturalmente, não, sr. Silveira; mas Deus indemnisou-a. Deu-lhe o amor do trabalho, e a noite e o dia, para grangear o pão de uma hora. Tem sido feliz, penso eu. O temor de Deus é a coragem com que se vencem os infortunios...

Alvaro, com a chavena esquecida na mão, escutava-o religiosamente. A novidade da linguagem, e o gesto religioso apraziam-lhe, e creavam-lhe desejos de ouvir o padre longo tempo.

XI

--A sua familia é conhecida?

Esta pergunta de Alvaro da Silveira é textualmente o inquerito galhardamente fidalgo, que a nobreza d'estes reinos faz, antes de deixar approximar-se por algum desconhecido, duvidosamente inscripto no livro dos costados. Perdôe-se-nos o estylo; mas, desgraçadamente, tudo que é ridiculo traz inçadas certas classes, e não sabemos, quando se farão sérias, quando se approximarão um dia as familias, de modo que não possamos sem offender a Deus, perguntar a nosso irmão se seu pae é conhecido...

--A minha familia--respondeu frei Antonio--foi conhecida; mas não é de lamentar que seja hoje obscura. Mal d'ella se quizesse manter as vans regalias da sociedade, que v. ex.a chamou conhecida! Penso que a minha familia não é conhecida.

--Mas deve estar aparentada...--replicou o fidalgo, instando nas perguntas inauferiveis da pragmatica heraldica.

--Creio que sim... O coronel ***...