--Já sei--interrompeu Alvaro--pois não!... é muito fidalgo, e está aparentado com boa gente; mas não apparece. Então v. s.a é tio de uma menina muito falada?...

--Muito falada!?--atalhou o padre com sobresalto.

--Sim, senhor, dizem que é poeta, romantica, e muito linda.

--É virtuosa, senhor Silveira. Não lhe conheço outra qualidade, que valha a pena de mencionar-se. V. ex.a já viu poesias ou romances, ou o retrato de minha sobrinha?

--Não, senhor, mas creio que não é mentira o que se diz. A opinião de virtuosa tambem a tem; se não falei de virtude, é porque não sei verdadeiramente o que é virtude; mas acredito que ella é uma excellente menina a todos os respeitos.

--A virtude, meu caro senhor, é a censura pratica do crime. Sabe v. ex.a o que é crime?

--Tambem não--respondeu Alvaro com uma vaidosa entoação de espirito-forte.

--Eis ahi--disse Fr. Antonio sorrindo--uma violencia que está fazendo á sua alma, sr. Silveira. V. ex.a disse que minha sobrinha era dotada de bellos attributos. Falou pela bôca da fama, e chamou-lhe poeta, romantica e formosa. Se minha sobrinha, apesar d'estas decantadas prendas e dons, que a sociedade encarece tanto, fosse má filha, e má irmã, poderia ella cegar os olhos da sociedade com a sua formosura e talento, para que lhe não vissem os defeitos...

--De certo não.

--Então é verdade, que a sociedade reprovaria o procedimento de minha sobrinha?