--Creio que sim.
--E v. ex.a?
Alvaro ficou suspenso, e balbuciou, depois:
--Eu... eu... naturalmente...
--Juntava a sua voz á opinião publica--interrompeu o padre--embora v. ex.a não antipathisasse com os actos repreensiveis de minha sobrinha.
--Assim é sempre--disse Silveira, com uma forçada resolução.
--E assim será sempre, porque ha um juiz incorruptivel, chamado a «verdade». As sentenças d'este juiz, embora fulminem as paixões desatinadas, são sempre recebidas, senão pelo espirito de uma sociedade gasta e immorigerada, ao menos por a consciencia d'essa sociedade. Ora a innocencia é invulneravel ao contagio da corrupção, como a lampada do templo ás exhalações pestilenciosas dos tumulos. A consciencia é o pregoeiro das sentenças que a verdade profere, e v. ex.a, insensivelmente, apregoa. Será necessario dizer-lhe eu que sentimento é esse que se serve de v. ex.a, como de uma machina para se exprimir? É a virtude, sr. Alvaro, é a virtude que faz realçar os dons de minha sobrinha, que lhe dá a soberania de um anjo, que o crime não póde encarar sem curvar-se servilmente: é a virtude, galardão ao principio do bem, que triumpha na lucta incessante com o principio do mal. A verdade não se desmente porque é o Evangelho identificado nos corações, e Christo ha dezoito seculos, encarnado na humanidade...
Alvaro parecia alegrar-se conforme ia perdendo o terreno, diante de um tão generoso como irrespondivel adversario.
Como se anciasse pela continuação da resposta do padre, quando este se calou, tambem Alvaro não teve uma syllaba, das que se pedem á «philosophia» irreconciliavel, para responder.
--Crê na virtude, sr. Silveira?--perguntou o padre com summa bondade e modestia.