--Tinha-me dito que o crime e a virtude eram relativos--respondeu o mancebo com ar de quem desacredita as doutrinas de um mestre que respeita.
--Tinham-lhe dito, senhor, que a consciencia universal era uma mentira. Mentiram-lhe cruelmente, porque v. ex.a não podia, sem horror, encarar um filho que matou seu pae; um homem que traíu o seu bemfeitor; um juiz que entregou um innocente ao carrasco; um seductor que atou uma pobre mulher a um poste de ignominia eterna. V. ex.a não póde, com indifferença, apertar a mão a este homem, não é assim?
--De certo: eu sou um extravagante, um vicioso, mas detesto infamias...
--Que todo o mundo detesta; mas o mundo onde a luz da verdade venceu as trevas do erro, que a palavra do Christo condemnou.
--Mas diga-me v.a sr.a... não dizem que ha paizes onde os paes matam os filhos, e os filhos os paes, legalmente?
--Houve, e haverá ainda. Mas sabe v. ex.a o que é permittido ahi pela lei? É justamente o que é reprovado pelo christianismo.
--Mas a consciencia não se revolta contra taes actos sem que seja preciso que o christianismo os declare criminosos?
--Revolta, sim. Quando as virgens indianas se lançavam nos tumulos dos maridos, ou nas fogueiras legalmente accesas, as lagrimas, vencendo a coragem da superstição religiosa, desciam nas faces de uma familia, que seria injuriada se não cedesse em holocausto a desgraçada viuva. Os gritos d'esta eram os gritos da consciencia contra a lei barbara; eram a adivinhação da verdade denunciada pelo filho de Deus. Os filhos, que matavam os paes, eram algozes que a lei fizera, como entre nós a lei faz um carrasco. Poderemos nós argumentar contra a piedade, contra a virtude, e contra o amor porque um justiçado morre entre os braços de um homem, que executa a sentença de um juiz?! Persuade-se alguem que o homicidio legal, na consciencia do algoz, é um acto de amor e caridade?
--Penso que não.
--Pois bem, senhor Silveira; respeite a sua propria dignidade, já que os homens sem crença, sem Deus e sem esperança, lh'a quizeram aviltar, dizendo-lhe que o crime e a virtude são relativos...