Agitou-se uma conversação variada entre as tres pessoas. Fr. Antonio, que vivera na casa do agricultor nas provincias do norte, falava de agricultura. Gonçalo parecia versado n'este ramo, e applaudia os melhoramentos, a que elle devia um duplicado rendimento das suas grandes propriedades. Alvaro escutava, pela primeira vez, um discurso serio, especialmente sobre agricultura, que elle ignorava desde a estação das sementeiras á das colheitas. E não parecia enfastiado, com quanto guardasse um justificado silencio na materia.
Era já outra a conversa. Frei Antonio estudava a maneira de entreter a attenção do discipulo. Falou d'esta litteratura amena, que se tornou universal por ser perigosa, por ser destruidora dos costumes, e dos estudos sérios. Falou de romances, como falaria de livros canonicos.
Conhecia-os como um vigilante examinador da origem da immoralidade. Alvaro conhecia alguns e honrava-os com a posse privilegiada de uma pequena estante que decorava no seu quarto. Fr. Antonio reparava nas encadernações de marroquim douradas, e nos titulos com que os licenciosos Paulo de Kock e Pigault Lebrun assignalaram os seus thesouros de libertinagem, escandalos da prevertida arte de imprimir.
Alvaro que não podia impugnar os argumentos do padre, e tivera a louvavel modestia de ouvi'-lo apenas, não quiz deixar-lhe plena gloria de triumpho, sem uma observação que elle julgava um golpe certeiro:
--Mas sua sobrinha--diz elle--é romantica...
--Que é ser minha sobrinha romantica?--atalhou o padre, sorrindo.
--Lê romances, escreve romances, pensa como nos romances... emfim, não vive, nem pensa, nem fala como a maior parte das mulheres...
--Ora ahi está uma definição de mestre!--disse o padre, soltando uma risada que parecia um motejo, se não fosse sua.--O romancista deve ser uma coisa bem extraordinaria!--proseguiu elle, batendo levemente no hombro do discipulo.--Quem me parece romantico, segundo a arte, é v. exc.a, sr. Alvaro.
--Eu!?--interrompeu Alvaro com innocente admiração.
--Sim, meu caro senhor. Não póde assim fazer-se uma idéa tão singular de uma pobre rapariga, sem contempla-la pelos olhos de uma imaginação maravilhosa! Minha sobrinha é uma artista que trabalha muito para sustentar-se, e vestir-se. Ora isto é muito positivo, muito trivial, muito commum com a vida do pobres, onde nunca entrou a palavra romance. Minha sobrinha nas horas furtadas ao trabalho, lê os livros que eu escolhi para a sua cultura espiritual, mas todos elles conselheiros da virtude, da probidade, da paciencia, e do temor de Deus. A sciencia profana, que eu affeiçoei ás necessidades do seu espirito, é muito pouca, porque, se fosse muita, seria um desperdicio de tempo, e de canceira inutil. A sciencia de ser boa filha, boa esposa e boa mãe, limita-se a muito poucas regras; e uma mulher não precisa outra sciencia. Minha sobrinha não leu ainda romances. Sabe que existem enredos torpes, escriptos em bella linguagem, como os cadaveres fetidos envoltos nos velludos prateados da eça; mas os seus dedos não levantaram ainda esse envoltorio de podridão. Minha sobrinha fala esta linguagem, senão geral, a melhor que os filhos podem aprender para falarem a seus paes, porque minha sobrinha conhece apenas o metal de voz de sua familia... É isto que v. ex.a chama «mulher romantica?»