Alvaro demorou a resposta.

--Eu pensava--balbuciou elle--outra cousa... O mundo engana-se muito nos seus juizos.

--Pois--tornou o padre com tristeza--que juizos são os do mundo a respeito d'ella?

--Eu lhe digo... O mundo chama romantica uma mulher, como muitas mulheres, que os romances nos pintam. Por exemplo, uma virgem, que vive n'um sonho continuado; que vê anjos onde as mulheres prosaicas não vêem nada; que scisma em continuas tristezas, ao lado dos que vivem n'uma continua gargalhada; que busca a solidão, encosta a face pallida á mão direita, como a estatua da melancolia, e se devora incessantemente sem poder explicar o motivo por que se devora. É o ideal que a mata; é a febre d'uma paixão indefinivel que a consome, é a esperança de um sonho, de que não acorda; é finalmente, a poesia, o romantismo.

Frei Antonio ouvira religiosamente este harmonico de palavras, que algumas vezes lhe pareceram desapegadas, e vasias de sentido. Respeitador das conveniencias, fez calar a verdade austera, que o mandava pedir uma definição logica de todo aquelle espiritualismo, de toda aquella linguagem refolhuda. Absteve-se da sua auctoridade, e transigiu discretamente.

--Serão esses--diz elle--os predicados da mulher romantica; mas o que eu posso conscienciosamente asseverar a v. ex.a, é que minha sobrinha está tão longe de ser romantica, quão longe de compreender a definição que o meu amigo acaba de dar.

XVI

Duas occorrencias vieram interromper a pratica: um creado, entregando uma carta a frei Antonio dos Anjos; outro participando a chegada do sr. conde de ***, que procurava Alvaro da Silveira. Este fez um gesto de enfado, e saíu. Aquelle, pediu licença, e abriu a carta. Gonçalo da Silveira retirou-se menos alegre, mas esperançado na mudança de seu filho.

Em quanto o padre lê a carta, entremos no quarto de Alvaro.

XVII