Maria.»

--Coitadinha!...--murmurou padre Antonio, dobrando a carta--És um anjo!

XX

O conde tomára uma postura comica de pasmo, quando Alvaro entrou no quarto. Alguma cousa o impressionára; mas em homens taes as impressões são fugitivas, e frouxas, porque não ha ahi enthusiasmo, nem grandeza n'essas almas caídas do sublime para o raso dos sentimentos grosseiros e triviaes.

O procedimento do seu amigo devia maravilha'-lo. Era extraordinario! Apenas entrou no quarto, Alvaro extendera-lhe friamente a mão, e mandára-o sentar-se com um gesto, muito significativo de fastio. Que o hospede lhe era aborrecido, bem o denunciava elle no franzir da testa, onde por força vem á luz da physionomia sentimentos que a delicadeza quizera algumas vezes abafar.

--Doe-te a cabeça?--perguntou o conde.

--Não... doe-me o espirito--respondeu Alvaro.

--As dôres do espirito, matam-se com espirito... mas é de vinho... Bebe... Obriga a materia a pensar de outra maneira, como diz Rousseau.

--E diz Rousseau que a materia pensa?--perguntou Alvaro, com um sorriso motejador.

--Que duvida!... A materia organisada, chamada homem, é uma cousa que pensa. Quando pensa mal, isto é, quando nos apoquenta, modifica-se a materia, imprimindo lhe uma acção nova. A maneira de modifica'-la é simplicissima. Disseste que estavas triste, não é verdade?