--Sim.
--Pois bem: bebe cognac, come fiambre, afoga-o em vinho de Setubal, que é de mais a mais um triumpho patriotico sobre o Champagne e Bordeus. Seja o que fôr o bolo alimenticio, que alojas no estomago, é materia: esta, posta em contacto com a materia que pensa, altera-a; e d'esta alteração chimica e physiologica resulta um novo ser pensante, uma solemne pirraça á tristeza.
O conde esperava merecer uma risada com a sua dissaborida theoria. Foi para elle uma segunda surpresa o silencio de Alvaro da Silveira. N'este silencio transparecia o desprezo a que nos movem as chufas desengraçadas de um truão, invita Minerva, que nos noja, quando pensa recrear-nos. O conde não estava affeito a estas decepções. O orgulho doía-se. Alvaro seria o ultimo de quem elle devia esperar um mau acolhimento.
--Agora vejo eu--disse elle contrafazendo o pejo, que mais acertadamente chamariamos despejo.--Agora vejo eu, que o teu cerebro de hoje conspira contra a tua felicidade de hontem... que tens tu, mancebo gentil? A brisa da noite desfolhou-te a rosa, que te embalsamava o olphato do coração? Sonhaste alguma virgem de olhos garços, que não pudeste realizar em materia corrente e sonante n'estes reinos?
Alvaro, nem um sorriso! Era demais para tanto espirito! O conde só agora compreendeu que os seus ditos causticavam a paciencia do discipulo. Este, apesar de molestado, não queria ser incivil. O predominio do conde sobre o seu genio não estava inteiramente extincto. Era-lhe necessario justificar-se de algum modo. Qualquer evasiva podia servir-lhe; mas a transfiguração do seu caracter, n'aquelle momento, não lhe permittia uma mentira. Bem podera Alvaro queixar-se de um padecimento physico, e tinha bem justificada a sua indolencia para as caricias folgazãs do conde; mas não o fez assim, e, se consultarmos o coração humano, ouviremos um applauso á franqueza que depois ostentava Alvaro. É que, se, por ventura, um sentimento novo acorda em nós desejos bons, o primeiro d'esses desejos é communicar aos outros uma felicidade, que tanto menos egoista, tanto mais perfeita se nos afigura. A passagem da indifferença para a observancia da religião revela-se sempre com esses symptomas. O zelo de um neophito manifesta-se mais corajoso e ardente que o apostolado de um orador feito, e encanecido em desalojar a impiedade dos seus ultimos reductos. E depois, no espirito illuminado pela effusão rapida e imperceptivel da graça divina, ha um desejo forte, uma vaidade santa de attrair espiritos contumazes, de curvar os joelhos arrogantes, e de vencer razões, cuja pertinacia nos parece impossivel na presença dos argumentos que humilharam a nossa. O que então se dá na alma é uma paixão sublime. A eloquencia do que fala, convicto de verdades que lhe promettem uma aspiração immortal, parece um emprestimo da linguagem dos anjos. Ei'-los ahi, de repente, credulos, os apostolos, que extendiam ha pouco as redes no lago de Gethsemani, e surgem agora entre os interpretes da lei, nas praças da Galiléa, falando linguas que nunca ouviram.
XXI
Alvaro da Silveira sentira-se capaz de converter um impio. Ha pouco ainda, balbuciára as primeiras palavras de fé, e crê-se já robusto para vibrar a funda contra o gigante do materialismo cuja arrogancia não vencem forças de homem, sem o impulso divino, que arrojára a pedra que prostrou o gigante philisteu.
--Que tens tu?--repetiu o conde.
--O que eu tenho--respondeu Alvaro--é o desejo de um amigo; mas queria um amigo, que nascesse n'este momento, e n'um momento me comprehendesse. Não podes avaliar-me, conde. Se pudesses, ser-te-hia bastante uma só palavra...
--Pois bem--replicou o conde--diz ao menos essa palavra... ou diz sequer tres palavras conceituosas como as de Cesar...