--Mas v. ex.a concede que o Creador não os ignora?

--Seria um absurdo não o conceder.

--E a razão humana não póde conhece'-los?

--Já disse que não.

--Mas v. ex.a disse que Deus é a razão humana! Eu sinto grandes difficuldades em combinar a sua these com as consequencias que se tiram d'ella. Se a razão humana é Deus, o homem é forçosamente divino pela celeste razão que o illumina. Se o homem, com a sua razão, não póde profundar os segredos da creação, eu não posso conceder que Deus, pelo facto de modificar-se em «razão» unindo-se á humanidade, reservasse para si certos mysterios como «Deus», e cedesse a si proprio o conhecimento de certas e determinadas verdades como «razão.»

--Não combinamos em principios, meu caro senhor, e d'ahi vem a desintelligencia em que estamos nas consequencias. Eu vou explicar-me com clareza: Eu digo que a razão do homem é uma emanação de Deus.

--Mas eu não entendo, sr. conde, o que é, e como se opera essa emanação de Deus. Deus é indivisivel; Deus é inalteravel; Deus é immutavel. Não posso, por mais abstractas que sejam as minhas intuições, imaginar que a emanação de Deus não seja uma parte de Deus; e, por tanto, não concebo como essa parte seja substancialmente diversa do todo. Deus considerado em si, segundo v. ex.a, é omnisciente, e vê os segredos da sua obra: Deus, convertido em razão pelo effeito da emanação, segundo os mesmos principios, perde os attributos de Deus omnisciente, e restringe-se ao conhecimento de algumas verdades, por meio das quaes é impossivel conhecer os mysterios, que ha perto de seis mil annos, os homens debalde tentam descortinar.

--Pois v. s.a não admitte que todo o ser creado é uma emanação de Deus?

--Não, senhor, não admitto.

--Essa é boa! Pois a creação não é uma producção de Deus?