--E a producção é por ventura uma emanação? A estatua de barro que sáe das mãos do esculptor é uma emanação de esculptor? Deus incorporeo poderia materialisar-se nas massas inertes, que foram producto de sua omnipotencia, tanto como o homem que foi feito á sua imagem?

--Ahi está um grande embaraço para mim. Não comprehendo como o homem corporeo foi feito pelo modelo de Deus incorporeo.

--A imagem de Deus, sr. conde, é a alma, não é o involucro material da alma. Memoria, vontade, intelligencia são os traços d'essa physionomia espiritual affeiçoada pelo typo divino. Attribuimos á memoria tudo o que sabemos, diz S. Bernardo, posto que esta sciencia não seja a causa de nossos pensamentos; attribuimos á intelligencia, e algumas vezes á memoria, tudo o que o pensamento nos mostra verdadeiro; imputamos á operação da vontade tudo o que reconhecemos ser bom e verdadeiro pelo soccorro da intelligencia. A memoria nos assemelha ao Pae, a intelligencia ao filho, a vontade ao Espirito Santo. Seja-me permittido citar Santo Ambrosio, em quanto v. ex.a invoca os textos de Voltaire. «Do mesmo modo que Deus, diz elle, creador do homem á sua semelhança, é caridoso bom e justo, doce e soffredor, puro e misericordioso... assim o homem foi creado para possuir a caridade, ser bom e justo, doce e paciente, puro e misericordioso. Quanto mais o homem sente em si essas virtudes, mais se approxima de Deus, e mais semelhança tem com elle. Mas, se ulcerado pelo crime e pelo vicio, elle se afasta e degenera d'esta nobre semelhança com o seu Creador, descerá á realidade d'estas palavras escriptas em predicção bem desgraçada: «O homem não compreendeu a sua elevada posição; comparou-se aos irracionaes, e assemelhou-se a elles.»

--Parece-me muito metaphysica a sua explicação, sr. padre. Eu gosto da geometria em todas as demonstrações, e não admitto verdades sem evidencia mathematica. O seu Santo Ambrosio e S. Bernardo explicariam perfeitamente a semelhança do homem com o seu Creador, mas foi n'esses tempos em que falavam ás turbas credulas, que juravam em suas palavras sem entende'-los. Hoje é muito perigoso esse assumpto, e não me consta que desde o seculo do grande Rei, desde Bossuet até Frayssinous, algum orador christão torture a intelligencia do seu auditorio, querendo á força persuadir-lhe que o homem foi creado á semelhança de Deus!

--V. ex.a não tem obrigação de ter lido tudo; mas tambem a não tem de calumniar Bossuet. Se a memoria não me falha, eu lhe cito as palavras textuaes do grande orador: «Façamos o homem; e proferidas estas palavras, a imagem da Trindade appareceu. Ostenta-se luminosa na creatura racional: semelhante ao Pae tem o ser; semelhante ao Filho tem a intelligencia; semelhante ao Espirito Santo tem o amor; semelhante ao Pae, e ao Filho, e ao Espirito Santo, tem, no seu ser, na sua intelligencia, e no seu amor uma mesma felicidade, uma mesma vida. Feliz creatura, e verdadeiramente semelhante, se ella se occupa unicamente d'elle! Então, perfeita no seu ser, na sua intelligencia, e no seu amor, conhece quanto é, ama quanto conhece: seu ser e suas operações são inseparaveis; Deus torna-se a perfeição do seu ser; a nutrição immortal da sua intelligencia, e a vida do seu amor... Ditosa creatura, se sabe conservar a sua felicidade!»

--Esta é a doutrina de S. Bernardo, de S. Ambrosio, de Bossuet, de Frayssinous, e de todos aquelles que bebem o leite da fé no seio da esposa de Jesus Christo.

--Não duvido; mas não compreendo. O que eu sei é que repugna com a menos desenvolvida razão a semelhança espiritual do homem com Deus. Eu conheço homens tão degradados da honra, tão hediondos de crimes, que reputára-me blasphemo se os considerasse semelhantes no typo divino.

--Ha de ter paciencia de escutar-me com a attenção de philosopho, se não póde prestar-me outra.--A revelação figura-nos o homem, não só como o mais perfeito de todos os seres animados, mas ainda como o rei da natureza, para o qual foram feitas todas as cousas. Por ella aprendemos que Deus fez o homem á sua imagem e semelhança, para que presidisse ao universo. Sabemos ainda que, depois de dar-lhe uma companheira, disse a ambos: «Crescei e multiplicae, enchei a terra da vossa posteridade, submettei a vossas leis tudo o que respira; pois tudo é feito para vós.» «Vós o fizestes senhor de todas as vossas obras!--exclama o psalmista--todos os entes vivos são submissos ao seu imperio, e destinados para seu uso.» É verdade que a escriptura varia a linguagem, quando lembra ao homem a sua construcção de terra, que em terra se tornará. Assim era necessario para suffocar os orgulhos do coração. Não é, porém, o longo viver sobre a terra que constitue a dignidade do homem. Não é sobre a terra, que a felicidade lhe sahirá ao encontro. Creado para Deus e para a eternidade, só no seio de Deus, e no seio da eternidade poderá ser feliz d'esse goso inalteravel que não se finda. É aqui onde começa a cadeia de objecções por parte da incredulidade. Nega primeiramente que o homem fosse feito á semelhança de Deus. Quem quizer, porém, convencer-se d'esta verdade, observe com attenção o modo como a alma exerce suas funcções, e o dominio que ella tem sobre o involucro de materia inerte, que lhe obedece: Consideremos a variedade infinita das nossas idéas, a rapidez com que ellas se formam, a communicação por intermedio da palavra, a fidelidade da nossa memoria, esse presentimento que raras vezes nos engana, tudo parece approximar-nos da suprema intelligencia, que abraça de um lance o céo e a terra, as passadas, as presentes e as futuras revelações da humanidade. A alma, quando furiosas paixões a não agitam, é capaz de reprimir seus desejos; de acalmar seus movimentos desordenados, de dirigir sua vontade, e ahi se observa uma, posto que imperfeita, imitação do imperio que Deus exerce sobre todos os seres. O sentimento que ella tem de sua immortalidade, seu olhar penetrante nas profundidades do futuro, e suas esperanças anciosas além do tumulo, são indicações do seu destino, assignalado por Deus.

--Essa imagem de Deus--atalhou o conde--está bem degenerada; e, se o não está, Deus é um ente bem imperfeito.

--Concordo--tornou o padre--que não é muito semelhante esta imagem do homem imperfeito com a do seu perfeito Creador; era-o, comtudo, no momento da creação; foi o peccado que o desfigurou. Mas se o homem degenerou por causa do peccado, lapso da sua innocencia primitiva, foi depois regenerado pelo sangue do Salvador, e, assim resgatado, tornou-se pela graça filho de Deus. O homem, no estado de innocencia, devia dominar-se, dominar as creaturas todas, e viver perfeitamente com Deus, seu creador. Eu quereria poder aqui especificar a substancia da alma, para satisfazer plenamente ás duvidas do sr. conde, mas, se eu posso provar que a sua espiritualidade está provada pela sua origem, devemos convir que tudo mais nos é desconhecido. Porque Deus soprou o barro que amassára, não se segue que a alma humana é uma porção de Divindade, como os antigos egypcios acreditavam: esta supposição levar-nos-ia ao pantheismo, de todos os systemas o mais insensato. Deus é um espirito, o espirito é indivisivel; e, recebendo cada homem no halito creador uma porção de Divindade, cada homem seria um Deus. O que devemos entender do sopro de Deus não é uma emanação da substancia, mas sim a creação de uma substancia semelhante, isto é, espiritual, mas nunca identica ao Supremo Espirito.