--Deus me livre de ser cruel para minha filha... Os homens muito experimentados na desgraça vêem tudo pela face peor. Póde ser que sejam dignos um do outro. Casem embora, e queira o céo que eu me arrependa mil vezes de ter agourado mal d'este casamento. Diz a Alvaro que lhe dou minha filha, e diz-lhe mais--que vae com ella a minha vida, vida que eu lhe dou, pois antes quero perde'-la, se hei-de um dia vê'-la infeliz. Que elle me mate, antes de fazer chorar Maria as primeiras lagrimas de arrependimento.
--Não sabes como elle lhe quer...--disse o padre.
--Tambem eu queria muito ás flores em quanto o viço d'ellas não desmaiava na minha mão. Depois, que valia uma flor sem perfume, sem seiva, amarellecida? Via-a caír sem dó, folha a folha, e, descuidado d'ella por amor das outras, punha-lhe em cima um pé indifferente. Compreendes o que é o homem, meu irmão? Melhor o compreenderás assim; não t'o quero pintar na linguagem propria... Na mão de Alvaro será Maria o que as flores foram na minha?
XIII
Foi restaurada a confiança entre as duas familias. Consentiram-se expansões sem testemunhas aos dois amantes.
A nuvem que lhes encobrira alguns dias o bello horisonte do seu destino, afervorára-os para mais da alma saudarem a reapparição, para mais se quererem.
Alvaro apressava o enlace. O coronel não o retardava nem o accelerava. Entrára-lhe profundamente a desconfiança na alma. Sua mulher tentava em vão destruir-lh'a. O frade chegava até a considera-la peccaminosa e ingrata aos favores do céo. Maria nem sequer imaginava que podia ser-se infeliz na situação d'ella; e contristava-se por não ver seu pae alegre como todos.
XIV
Frei Antonio foi o ministro do sacramento. Abençoou-os na capella de Alvaro da Silveira. A um dia de jubilo, seguiram-se muitos dias de felicidade intima. Em casa, porém, do coronel, chorava-se muito. Faltava alli a alma d'aquella familia. Os irmãos de Maria, alguns ainda creanças, estavam affeitos ao seu regaço, ás suas lições, e ás suas carinhosas repreensões. O coronel não queria ver a cadeira em que Maria se sentava, o piano, o açafate da costura, tudo que parecia chorar com elle a falta da sua dona. Sentava-se a familia triste e taciturna em redor da mesa. Olhavam todos, sem consolar-se, para o logar de Maria, e rompiam de todos os olhos as lagrimas. Erguiam-se, vendo o pae erguer-se; apenas a mãe ficava, com o coração partido, dando o exemplo da resignação, e consolando com palavras animosas, esforço mais intenso na dôr que a dôr de todos. Ao oitavo dia a esposa veiu visitar sua familia. Foi recebida em alvoroço. Queriam beija'-la todos ao mesmo tempo. Os irmãos mais novos perguntavam-lhe se ficava para sempre. Maria, entre risonha e lacrimosa, repartia-se em affagos por todos, desejando alguns instantes de solidão com sua mãe.
--És feliz, minha filha?--perguntava-lhe o coronel.