--Sou, meu pae, quanto se pode ser, longe dos seus. Falta-me lá esta familia; ainda não pude, nem poderei considerar-me desligada d'esta casa. Parece-me até que sou mais d'aqui, e que a outra é uma casa de emprestimo.

O coronel voltou-se para sua mulher, e disse:

--Sentias isto quando casaste comigo? Tinhas assim saudades de tua familia?

--Não...--disse a mãe de Maria.

--Então...--tornou o coronel--tua filha é menos feliz do que tu foste! No goso da abundancia tem occasião de sentir saudades da pobreza que deixou.

--O pae--replicou Maria--engana-se, ou não póde sentir como sente uma mulher. Minha mãe havia de sentir o que eu sinto; é que já se não lembra... Pois haverá felicidade que me faça esquecer a minha familia?! Eu não sei o que é abundancia nem pobreza. Ainda não pude ver a differenca que vae do que deixei ao que hoje tenho, senão pelo coração. Sou feliz com Alvaro, mas seria mais feliz se Alvaro vivesse como irmão dos meus irmãos, aqui...

Alvaro entrava n'este momento, repartindo por todos amabilidades, chamando manos a seus cunhados, queixando-se de que o não tenham visitado, convidando-os para o seu camarote, offerecendo-lhes as suas carruagens.

--Cousa notavel!--dizia o coronel, tirando á parte frei Antonio que tambem concorrera á primeira visita de sua sobrinha.--Cousa notavel! As maneiras acanhadas de Alvaro desappareceram. Todos aquelles modos, a munificencia com que nos dispensa os seus favores, tem um ar de orgulhoso triumpho que me intimida. Ha alli alguma cousa que parece dizer. «Casei com vossa filha pobre, e tenho a fidalga generosidade de vos querer elevar com ella!» Não te parece?

--Parece-me que estás contaminado da má fé do mundo.

XV