Chegou D. Anna.

A palestra d'aquella noite foi mais trivial que nunca. Venceslau Taveira conversou nos assumptos habituaes—politica, e congresso dos reis em Verona, o juramento da constituição e a suspeita de que a rainha D. Carlota recusaria jural-a, etc.—materia duvidosamente lyrica para noivo.

Á hora do costume, o deputado sahiu, bem que o commendador Vaz lhe désse a perceber que muito desejava elle podesse encontrar-se com Eduardo n'aquella noite.

—Ámanhã o procurarei—disse Venceslau, em quanto Anna e Julia se trocavam um lance de olhos que significava a incompetencia do mediador escolhido pelo velho.—Hoje tenho ainda trabalhos de escripta e estudo que me devem levar a noite toda.—Accrescentou o deputado.

—Está a chegar o dia do repouso...—observou o commendador alludindo ao casamento, d'onde lhe resultaria a inercia dos ricos.

—O dia do repouso é o primeiro da morte—contraveiu Venceslau.—Ninguem repousa n'esta vida; e, a meu juizo, os espiritos mais trabalhados, e talvez mais infelizes, são os que se agitam em inutil actividade. A riqueza, que convida ao ocio, é pessima, quando por ella trocamos o thesouro dos bens da alma.

Eis-aqui maximas stoicas não vulgares em noivos,{212} salvo se elles são philosophos; mas a raridade d'esta especie é já grande; e algum Socrates que ainda apparece a maridar-se, é contar com elle bem castigado por Xantipas.

Na ausencia de Venceslau Taveira, contou D. Julia concisamente ao commendador o breve prefacio do seu projectado casamento; porém—rasoavelmente lh'o advertiu o velho—tão desenthusiasta expunha ella como expozera o noivo aquelle importante e solemnissimo acto.

—Eu bem sei...—dizia o commendador—que entre pessoas sisudas o casamento é passo para mui serias meditações; mas, logo que a deliberação está feita, parecia-me natural vêl-os muito alegremente fallarem do seu futuro...

D. Julia sahiu á meia noute. Ia triste, e perguntando a si mesma: «Estarei eu enganada com elle e comigo? Este sentimento de estima será bem o amor que preciso hoje mais do que nunca alimentar no ardente coração de um homem?... Com que frieza elle fallava de politica, olhando para mim hoje como hontem, como sempre, como se eu alli não fosse mais do que uma das costumadas pesssoas do seu auditorio... Mas...»