—Está febril minha filha, não está?—perguntou o commendador.{210}

—Está levantando-se... Não tem febre, e vem ahi já.

—Mas que era?...—volveu Francisco Vaz.

—O que eu lhe disse...

—Ciumes?...

—Sem fundamento... Apprehensões de quem muito ama...

—Torturas...—emendou o velho; e voltando-se para Taveira, continuou:—O tedio, o enôjo em esposos de cinco mezes, o que será aos cinco annos, snr. Taveira?

—Póde ser que seja a felicidade de ambos, a reciproca e serena confiança, quando os zêlos fundam em leviandades passageiras.

—Conhece muito as sciencias que o espirito humano creou; mas sabe pouco do coração do homem, snr. Taveira—contrariou o commendador.—A mulher que, ao quinto mez de casada, nova e bella, apaixonada e incapaz de comprehender a perfidia, se vê trahida, perdôa, se é honesta; mas o homem, capaz de arrependimento, e de ajoelhar aos pés da esposa generosa, se algum existe, não é Eduardo. Na vida d'este mal-fadado ha condão funesto...

—Ha apenas, e quando muito, uma preoccupação...—disse o deputado.—Esteve hontem comigo, e causou-me estranheza. Fallou-me em sahir de Lisboa com licença de seis mezes para uma quinta. Suspeito que a frequencia dos bailes lhe haja colorido falsamente os quadros que elle não examinou quando era moço... Espero{211} que o mentiroso prisma se lhe quebre, logo que a mão da lealdade contricta lhe desperte a consciencia...