—Fazes o que eu te pedir?

—Se podér...

—Pódes... ha de custar-te, mas pódes... Todas as victorias são difficeis, filha; mas as da paciencia, nas tuas circumstancias, são sempre seguras... Finge que tudo ignoras. Não profiras o meu nome com azedume, não dês côr suspeitosa ao que de mim disseres. Recebe-me com o mesmo amor, que cada vez t'o mereço mais extremoso. Vae a minha casa; e, na presença de teu marido, falla-me sem a minima reserva, e não procures surprehender nos olhos d'elle a intenção com que me olha. Se fizeres isto, restituo-te Eduardo com o juizo restaurado.

—Mas, se não poderes...{209}

—Se não podér, vou viajar, ou sósinha ou casada, e só voltarei a Portugal, quando me tu disseres que teu marido recuperou a honra perdida.

Anna Vaz beijou ardentemente a face da sua amiga, e exclamou:

—Espera... deixa-me levantar que eu vou comtigo para a sala... Quero que o meu pobre pae me veja sorrir... Vae dizer-lhe que me estou erguendo, e que estou boa... Inventa qualquer coisa...

Já estava na sala Venceslau Taveira recebendo os emboras do commendador, e explicando os pormenores da sua imprevista alliança. Ao tempo que D. Julia entrava, acabava de dizer o commendador ao noivo:

—Mas que é isso?! Acho-o extraordinariamente triste!... Narrou-me em termos tão gélidos uma historia para tantas alegrias!... Que não vá o meu querido amigo enganar-se com o seu coração ferido de sobresalto... Agouro não sei quê... Eu queria-o vêr mais contente... mais rapaz... mais noivo!... Os homens da sua têmpera parece-me que têm uma só familia—a patria, e uma só paixão—a das conquistas da felicidade para o genero humano...

Venceslau escutava ainda o écco das palavras do velho que se lhe repetiam na alma, quando Julia entrou, incendida no rosto da violenta crise em que as interrogações de Anna Vaz a mortificaram.