—Não o desprezo; estimo-o, quanto posso estimar o marido d'uma amiga intima—disse D. Julia sensibilisada, mas serena.

—Eu não quero ser estimado, porque estou preso com um grilhão de ferro á amiga de V. Ex.ª... Guarde a sua piedosa estima para as victimas resignadas...{214}

—Que quer então?

—Pouco... quero que V. Ex.ª me diga que no momento em que tractava o seu casamento com Venceslau Taveira não viu passar entre o seu coração e o seu futuro a imagem lagrimosa do homem que V. Exc.ª ameaçou com uma denuncia...

—Não vi a sua imagem; vi a imagem lagrimosa de sua esposa... Essa é que eu vi, e venho de vêr agora prostrada no leito, e receio vêl-a brevemente prostrada na sepultura... Snr. Eduardo, tenha compaixão d'ella e de mim!

—De V. Ex.ª!?—interrogou elle, alvoroçado pela commoção que se delatava no tremor da voz.—Compadecer-me eu de V. Ex.ª?! Quando deixei eu de adoral-a, para offendel-a?

—Não diga que me adorou, supplico-lhe que desfaça essa illusão da sua alma.

—Oh! para que está mentindo á sua consciencia, snr.ª D. Julia? Pois não viu que eu a amava quando casei? Não me impôz delicadamente em sua casa o preceito de lh'o não revelar?

—Falle baixo—acudiu Julia—que póde ouvil-o o creado. Jesus, que desventura a minha! Ó snr. Eduardo, tenha brios e valor! Deixe-me, esqueça-me!... por alma de sua mãe, e d'essa infeliz senhora que lhe morreu nos braços, em nome de ambas lhe rogo que me esqueça, que me não obrigue a fugir de Portugal!... Mal sabe quanta gratidão lhe daria a minha alma, se me attendesse, se me deixasse ser sua verdadeira amiga! Juro-lhe{215} pela memoria de meu pae que me não torna a vêr, se não domina o desatino que está cavando a sepultura de sua mulher...

—Sempre a minha mulher!... Por que me não falla do seu marido?