—Pois bem... peço-lhe em nome de meu marido que me respeite!—disse D. Julia com a maxima gravidade e decoro.—E, se não, adeus para sempre! Não sustentarei com V. S.ª uma lucta odiosa. Ha afflicções que se tornam ridiculas, se a coragem as não subjuga. Desterrar-me-hei para que o snr. Pimenta, esquecendo-me a mim, se lembre de que ha uma coisa mais preciosa que eu: é a honra, a sua propria honra. Peço-lhe que me deixe recolher. Os meus creados não estão habituados a assistirem a estes dialogos por alta noite, e eu não lhes quero dar direito a suspeitarem de mim.
—Só duas palavras, snr.ª D. Julia. Não sáia de Portugal—supplicou Eduardo com apaixonada resignação.—Juro que não perturbarei a sua tranquilidade. Fique, rogo-lhe com as mãos erguidas que fique; mas não me prohiba que eu a ame... Será um amor sem lagrimas, sem um gemido, sem que nos olhos se me veja o reflexo do fogo que me ha de ir devorando. Não me prohibe esta inoffensiva tortura, não?
—Ó snr. Eduardo...—balbuciou Julia.
—Adeus! vá!... Olhe que o mundo não encerra mais desgraçado homem! Eu hei de obrigal-a, hei de, Julia, a confessar que foi muito amada, e talvez... muito ingrata... Adeus.{216}
Eduardo desviou-se, e a sege abalou.
E D. Julia de Miranda, enxugando os olhos, de certo sinceramente chorava, porque não é de presumir que uma mulher finja lagrimas, quando ninguem a observa.
Mas chorar, ó Deus do céo, ó creador omnisciente do prodigioso coração de mulher! Chorar! porquê?
Ai! chorava por que não podia odial-o...
Leitor florído, se V. Ex.ª é menos honesto do que eu penso, de certo estima que as suas visinhas chorem por não poderem odial-o.{217}