É simples a resposta; mas ha que presagiar calamidades n'ella.

Marcado o dia do casamento, Venceslau convidára Eduardo a ter parte na sua festa do coração, assignando como testemunha na egreja. O commendador tambem foi como padrinho e madrinha a filha. Os restantes do pequeno cortejo eram alguns deputados anciãos e militares companheiros do exilio do noivo.

Eduardo apresentou-se na ceremonia com certa compostura grave, melancolica; porém de modo algum suspeita. Anna, docil aos preceitos de Julia, mas talvez mais submissa aos do coração, espionava involuntariamente os raios vizuaes do esposo. Escassas vezes o colheu em flagrante delicto. A noiva por sua parte parecia esconder mais do que elle o relance furtivo de olhos; todavia, se alguem lhe chamava a attenção para Eduardo, se Venceslau lhe dizia: «o Pimenta está pallido e triste», ella encarava-o com desassombro, e respondia qualquer coisa, sorrindo banalmente, como se fosse uma tola vulgar.

O banquete das nupcias foi modesto, moderadamente animado, e concorrido de velhos que nem sequer primavam{222} nas jogralidades proprias do acto, e sempre bem acolhidas, quando vem auctorisadas pelas cans; que o impudor senil tem fôro de graça lusitana, segundo parece, em festins de noivado. Os coroneis e os legisladores commensaes de Venceslau fallavam de politica e de batalhas. Venceslau foi eloquente n'estes assumptos. Padre Manoel Ferreira manteve-se em silencio meditabundo. O commendador conversou sempre com Julia. E Eduardo nunca se mostrou tão apontado em attenções carinhosas a D. Anna.

O restante da noite correu mais animada, graças ao espiritismo dos coroneis, que tinham brindado repetidas vezes á liberdade, e ungido com profuzas libações o seu athletico odio contra o despotismo. Os legisladores tambem.

Findo o saráo, Eduardo apertou a mão da esposa do seu amigo, e pôde ceciar umas palavras que ella ouviu com a audição interior da alma: «Nunca mais».

Ninguem a viu descorar; mas ella desconfiou que a vissem, porque lhe quiz parecer que o sangue se lhe congestionára no peito e que ao longo das faces lhe resvalára a sensação do frio. Imaginações, talvez. Nervos.

Ao outro dia, D. Anna Pimenta, a hora desacostumada, e menos propria de visitar noivas recentissimas, appareceu em casa de Julia. Eram onze da manhã, e já encontrou Venceslau a sahir. Aos reparos da esposa do seu amigo respondeu elle que não podia faltar ao congresso, onde se pleiteavam graves projectos de lei. A amorosa senhora não pôde sequer por delicadeza louvar{223} semelhante patriotismo. Lá no seu recondito juizo diria talvez ella, em prosa menos pedestre, que não havia lei em projecto que valesse uma formosa mulher já realisada.

Encontrou Julia no toucador, sentada, em frente do alto espelho, n'um reclinatorio de estofo cramezim, com os opulentos cabellos a serpearem sobre as rendas do penteador, e umas travessas d'oiro a desviarem-lh'os das fontes. A posição languida da noiva, um pouco antes, denotava abatimento moral, um ar reflexivo de quem se quer imaginar n'um sonho infeliz, e não póde tirar dessa forçada quimera senão tristezas.

Mas, ainda assim, quando ouviu passos e conheceu a tosse nervosa de Anna Vaz, desanuviou a face, illuminou-a d'um sorriso, e apertou nas suas as mãos da amiga.