—Tão cedo?—perguntou ella.—Tu vens febril!...

—E agitada, porque vim a pé... Venho despedir-me...

—Para onde vaes?!

—Para a quinta do Riba-Tejo. O Eduardo esta manhã, ergueu-se ás seis horas, e pediu-me carinhosamente licença para ir passar á quinta algum tempo. Eu disse-lhe logo que o acompanhava; elle mostrou-se grato á minha dedicação, e resolvemos partir ámanhã de madrugada. Agora preciso dizer-te o que penso de meu marido. Esta resolução de sahir sei eu, e tu tambem sabes, d'onde procede; mas eu não lhe disse a menor palavra{224} a tal respeito, deixando-o persuadir da minha ignorancia. Creio que elle te ama... digo-te isto sem lagrimas, porque já chorei quantas tinha... Se elle foje de ti para te esquecer, espero que a nossa tranquillidade se restabeleça. Da minha parte, seguirei até ao fim os teus dictames. Hei-de fingir sempre que tudo ignoro, por amor d'elle, de meu pae, de ti... e de mim tambem... Olha, Julia, sorri-me uma esperança... Póde ser que o nosso primeiro filho seja o anjo de reconciliação entre nós. Pareceu-me que os olhos d'elle me encaravam com extraordinaria ternura, quando ha dias lhe disse, que eu, d'aqui a quatro mezes, havia de vêl-o a acalentar nos braços a nossa creancinha... Porque não choro eu agora ao despedir-me de ti? porque te amo, Julia, apesar de saber que és mais amada que eu? Sabes porque é? Quando se tem no seio um filho, as lagrimas estancam-se, e os odios não podem empeçonhar o coração onde se está formando a alma d'um innocentinho... Deixemos passar esta borrasca... Tempo virá em que sejamos muito felizes...

—Eu? Nunca mais...—murmurou Julia.

—Porquê?...

—Não torno a ser o que era antes que á casa de teu pae entrassem estes dois homens fataes, um que escureceu a tua alegria, e o outro... que eu não...—E susteve-se, como envergonhada de si mesma.

—Que tu...—instou Anna.

—Nada, filha... não me interrogues... Olha... eu{225} amei teu irmão... amei-o quando tinha a edade e as illusões da infancia... Elle morreu... e envolveu na sua mortalha o meu coração...

—Mas... para que...—disse D. Anna hesitante.