—Para que casei, queres tu perguntar-me?...
—Sim...
—Se eu t'o disser... has de querer ajoelhar aos pés da tua amiga victimada... e eu levantar-te-hei nos meus braços para te pedir que não me faças responsavel dos teus dissabores...
—Dize... que eu não te entendi...
—Para que me casei?... para que teu marido me respeitasse casada... Para que me casei com Venceslau? Para ter por defeza da minha dignidade o homem que teu marido mais respeita...
D. Anna abraçou-a com vehemencia, bebeu-lhe as lagrimas nos beijos, e murmurou:
—É impossivel que Deus não te dê o galardão de tanta virtude... Esse grande sacrificio ha de trazer-te dias de inefavel contentamento...
—Nenhuns... ha-de trazer-me apenas—e já não é pouco—a satisfação de te ver socegada.... Vae, filha, e escreve-me sempre que possas. Se vires que elle quer voltar a Lisboa antes de me ter esquecido como se esquece uma mulher já desfeita na sepultura, avisa-me, que eu hei de mover Venceslau a ir viajar... Depois, quando eu voltar, estarei velha e tu ainda nova e bella. Os cabellos brancos não tardam. As rugas já me começam na alma... Ha uma velhice que nos passa do coração{226} para o rosto... é a saudade... é vêr o passado feliz lá ao longe, e o presentir a morte no frio que nos cerca...
—Mas, ó meu Deus!—exclamou Anna, pondo as mãos—Venceslau Taveira não te ama?
—Ama com o amor dos trinta annos, quando desde os vinte se procuram e encontram as paixões na politica, na meditação e no estudo... Não vês isto? Casei hontem; e meu marido foi hoje ás dez horas para o congresso, depois de me dizer que prevía a emancipação do Brazil em breve tempo, e que hoje mais que nunca os bons portuguezes deviam acercar-se do leito da mãe patria que ia perder a filha que lhe era o amparo da velhice. E se visses a gravidade com que elle me discursava estas coisas? Parecia um pae illustrando a ignorancia de uma filha!... Ó Anna... se eu tivesse coração... se houvesse casado com Venceslau amando-o muito, que lagrimas me não custaria este desengano!...