—Pois, sim—redarguiu Anna Vaz—convenho que Venceslau seja tudo que dizes, mas verás que nunca te ha de dar a mágoa da perfidia...
D. Julia sorriu-se com aspereza, ironia, e talvez motejo d'essa virtude da lealdade que apenas lhe lisongeava o orgulho.
—E tu verás—proseguiu aquella perfeita alma cheia de lagrimas, quando a outra sorria—verás que te ha de amar cada dia mais; e que, depois das suas occupações, virá para ti cheio de alegria, e sedento dos suaves prazeres da vida intima...{227}
—Porque o não amaste, Anna?—perguntou de salto e desapropositadamente D. Julia.
—Porque o não amei?... Se eu amava Eduardo...
—Viste-os ao mesmo tempo... ou, mais exactamente, viste primeiro Venceslau... Porque o não amaste?—insistiu a arguciosa dama.
—Se elle me tivesse amado, antes que Eduardo me escrevesse, eu de certo lhe correspondia, porque me pareceu sempre estimavel, nobre, honrado, fallando de meu irmão com as lagrimas nos olhos, e respeitando meu pae, que o presava extremamente.
—Sei isso... mas o teu coração, á vista d'elle, não sentiu os estremecimentos que lhe causou Eduardo.
—Bem sabes como foi, filha!... Eduardo, á segunda vez que foi a nossa casa, estando eu a tocar, disse-me que, se o não podia salvar com o amor, que lhe tocasse musicas bem tristes que o podessem salvar com as lagrimas... Estas palavras acharam em minha alma toda a sensibilidade d'uma rapariga innocente... Depois vieram as cartas... depois... tu sabes tudo como se passou...
—Sei...