—Mas que perguntas me fazes!... Ó Julia, se não amavas Venceslau, não devias casar. A tua dignidade não precisava que um marido a defendesse. Ha quantos annos eu te conheço pretendida e amada; e nunca te vi receosa de ninguem! Bastava o teu desprezo para rebater os mais atrevidos. O sacrificio, que fizeste da tua liberdade, para que eu te não julgue causa dos meus occultos{228} desgostos, era desnecessario. Tão confiada estava eu na tua virtude de solteira como na de casada...
—Sacrifiquei-me então inutilmente?—interrompeu Julia.
—Inutilmente não, que eu irei jurar que se eras um anjo para mim, és agora uma victima da santa amisade que me tens; mas inutilmente para a tua honra, isso sim; porque não é teu marido que te ensina os deveres; és tu que os prescreves ás tuas paixões...
—Quaes são as minhas paixões?—perguntou D. Julia por tão estranha maneira que incutiu na amiga receio de a ter offendido.
—Eu não digo que as tenhas, filha...—emendou ingenuamente D. Anna.
—Então?
—Queria eu dizer que tu dominarias as tuas paixões, se fossem más... Comprehendeste, Julia?...
A esposa do deputado, levantando-se energicamente, travou do braço da amiga, e disse:
—Vamos passear nas salas... Estou muito nervosa... A final, tudo que tenho é uma febre cerebral, uma enfermidade estupida na cabeça.