Na hypothese de que as duas senhoras vão dizer coisas frivolas, não as sigamos; e, se o leitor conjectura que ellas podem dizel-as transcendentes, não as sigamos tambem.

Sentemo-nos aqui na sala de espera, n'este grande escabello de castanho, com espaldar blazonado, e philosophemos,{229} mas façamos philosophia portugueza, chã, de soalheiro, murmuração delicada; mas, repito, portugueza. Nada de esthetica. Nada de germanismos. A gente está em 1822, quarenta annos antes da entrada do apocalypse em Portugal com todas aquellas bestas de que falla S. João.

Philosophemos então a respeito de D. Julia.

O leitor medita, reflexiona, combina, discute, compara e conclue, formando o seu juizo.

Formou? Philosophou?

Eu tambem.

Agora tenha a condescendencia de esperar que os factos correspondam á lucidez das suas previsões.{230}
{231}

[XIX]

A ira que entumece e arqueja e vibra no proprio coração dos grandes sabios.

HOMERO.—Iliada, cant. IX.

As cartas vindas de D. Anna para Julia eram discretas e pensadas de modo que Venceslau Taveira, da sahida de Eduardo, inferia apenas que o seu amigo se desviára com plausivel prudencia dos perigos amorosos que o assediavam na alta sociedade. Esta supposição colhida de algumas phrases problematicas das cartas, que Julia não escondia, dava margem a que entre os dois esposos e padre Manoel Ferreira se conversasse sobre a desmoralisação dos costumes.