Com interesse de respeitoso compungimento o via Venceslau Taveira, e o escutava nas apostrophes iracundas contra a dynastia de Bragança. Já decrepito, o solitario da charneca de Odivelas, recordava o neto dos Athouguias, e dizia que se a França houvesse tido um homem assim recaldeado em fraguas de tamanhas angustias—um tão extravagante complexo de soberba e aviltamento, de saudade maviosa e sevos odios—os mais grados litteratos o exalçariam diante do mundo, tornando-o interessante como historia, como philosophia, como moral, e até o poeta se não pejaria de ir procurar nas cavallariças de Massena esse neto de reis portuguezes, e vestil-o dos esplendores da poesia tragica, ao mesmo passo que o seu real parente, o principe D. João de Bragança, apenas vingaria ser dignamente cantado nas epopêas bordalengas de José Daniel.

Affeição de outra tempera, como de eguaes e de mancebos em alvorada de esperanças, ligou Venceslau Taveira a um official de infanteria do quartel-general de Pamplona.{23}

[II]

O célestes concerts de joie et de douleur!

HENRI BLAZE.—Matutina.

Era um rapaz de vinte e dous annos, chamado Eduardo Pimenta, natural de Braga.

Este moço levava uma vida tanto em comêço já cortada de profundos golpes; e, por amor d'isso, como as suas dôres não podiam ser expiação de maus actos, a gente de coração queria suavisar-lh'as, linimentando-lh'as com o balsamo da amizade.

Bosquejemos a historia d'esta mal estreada existencia.

D. Antonia de Portugal, famigerada formosura n'aquelle tempo, viera de Lisboa a visitar irmãos, que tinha no Porto, alliados por casamento nas duas casas de mais gothica estirpe. Affeiçoara-se aquella dama a um alferes, sem discriminar os distantissimos pontos de partida{24} em que o Creador pozera o seu primeiro avô do avô de Eduardo Pimenta:—erro talvez devido á insufficiente leitura que a menina tinha de Moysés.

Era orphã D. Antonia; mas a tutela de um tio que por vezes exercera o então poderoso cargo de ministro de Estado, pesava-lhe mais oppressiva e inflexivel que o poder paterno. Assim pois, tão depressa raspou nos ouvidos do fidalgo o indecoroso affecto da sobrinha, que logo Eduardo Pimenta foi chamado á capital e transferido ao Brazil em serviço militar. Inquebrantavel em seu amor, D. Antonia incutiu no peito do desterrado a flamma da sua coragem, accendendo-lhe esperanças temerarias e perigosas.

Os parentes d'ella tomaram-se de espanto e ira, ao saberem que o alferes desertára do seu regimento, desembarcára em Lisboa, e ajoelhára aos pés do principe regente solicitando e impetrando licença para casar-se com D. Antonia de Portugal.