O consentimento, porém, do bondoso principe não tolheu que o alferes, acossado pela perseguição de sicarios, se evadisse da côrte, refugiando-se nos arrabaldes de Braga, d'onde em vão implorou por mediação de amigos a malograda protecção do principe.
No entanto, a pertinaz menina, cansada de reagir á pressão dos parentes, acolheu-se ao mosteiro de S. Bento da Ave Maria, no Porto, onde tinha uma tia professa; mas d'ahi ainda o braço rijo do tio ministro, mediante o chanceller das justiças, a foi arrancar, allegando que{25} a reclusa, escrevendo e recebendo cartas, gosava liberdades deshonestas que em sua casa lhe eram prohibidas.
E em verdade escrevia muitissima carta D. Antonia, e dispunha de estylo que, relativamente á época, não era menos de romantico. Se o leitor quizer, logo lhe darei occasião de apreciar a linguagem e a sensibilidade extrema d'esta senhora que pagou penosamente os dons do seu espirito.
Apartada judicialmente da indulgente freira, foi transferida para o collegio das orphãs que n'aquelle tempo foi viveiro de meninas lastimosas, mormente as pensionistas, as formosas, as amadas, as ricas, as filhas segundas—e hoje em dia está sendo—graças á santa Casa da Misericordia—um alfôbre de educação moral onde o vicio não póde coar-se senão em parcellas diminutissimas, por onde se vê que a Misericordia conseguiu estar-se em pleno osculo com sua irmã ou prima, a Castidade.
N'aquelles dias, pois, a urna dos divinos balsamos de Jesus caritativo transformára-se em gral onde os corações eram pulverisados. E d'este pó amassado com lagrimas sustentava-se a honra das familias, a dignidade das mulheres, e nutriam-se as boas esposas que depois sahiam a repartir affectos entre maridos, e primos e capellães, e tudo mais que convinha a manter honesto equilibrio entre as coisas humanas e divinas.
Pois, sem impedimento das vigilantes espias que lhe espreitavam os gemidos e os arremessos, a reclusa vingou{26} passar na roda uma imprudente carta que denunciava a residencia do alferes homiziado.
Guiados pelo destino da carta, os aguazis do corregedor, com auxilio de escolta cedida pelo general da provincia, cercaram o escondrijo do desertor, prenderam-o com affrontosas precauções, e aferrolharam-o na mais escura masmorra do castello de S. João da Foz, onde, quarenta annos antes, alguns padres da Companhia de Jesus haviam expirado de fome e frio por ordem do deshumano marquez de Pombal.
Avisada do desastre causado por sua indiscrição, D. Antonia rompeu em tamanhos desatinos que a regente, por amor á vida não votada ao martyrio, requereu que lhe tirassem d'aquella casa mansa e quieta a turbulenta fidalga, que ameaçava tortural-a com a roda de navalhas de Santa Catharina, virgem e martyr. A regente, diga-se verdade liza, parece ter tido escrupulos de mentir, e receios de não poder entrar no reino da gloria eterna com a dupla corôa da santa anavalhada. Não lhe pezem, todavia, as minhas suspeitas sobre os ossos que D. Antonia lhe ameaçou tres vezes ou mais.
O certo é que a louca de amor foi d'alli passada com guardas de esbirros para Santa Clara de Coimbra, mosteiro onde áquelle tempo se exercitavam maleficios inquisitoriaes sobre donzellas eivadas do judaismo da ternura por sugeitos incongruentes com suas pessoas e bens.
N'esta conjunctura, succedeu entrar em Portugal o invasor Junot, e com elle a vanguarda de ideias livres,{27} vestidas com as pompas da egualdade humana—santas palavras que desafogaram corações abafados ás mãos da tyrannia de paes e tutores. D. Antonia, alumiada na escuridade da sua cella por lampejos de esperança, ao saber que o general estava em Coimbra, escreveu a seguinte carta que vae textualmente copiada da que tenho e que é a original com toda a certeza. Bem póde ser que semelhante documento desquadre á urdidura d'esta narrativa; vá, não obstante, como homenagem a uma dama infelicissima, a qual, ao fechar-se em sua sepultura, abriu algumas que mais tarde se encerraram depois de cruciantes agonias, como no discurso do livro se irá vendo.