Dizia assim a carta a Junot:

«A alta consideração que por tantos titulos é devida a V. Ex.ª, imporia á minha triste situação o mais respeitoso silencio, se a vossa generosidade, Senhor, a não tivesse prevenido, assegurando aos habitantes de Portugal uma protecção que, fazendo a nossa gloria, é a mais sublime recommendação da vossa virtude e nobreza. Estes dons tão preciosos me animam e prestam valor de elevar minhas supplicas e lagrimas á respeitavel presença de V. Ex.ª O illustre guerreiro que participa da gloria do maior dos heroes que tem visto os seculos, saberá como elle unir clemencia e piedade ao valor que no campo de Marte immortalisa seu nome.

«É do fundo de um claustro que a mortal mais desgraçada ousa aspirar á honra de invocar o illustre general. É a innocencia tyrannisada e os direitos mais{28} sagrados combatidos que se refugiam no asylo de vossos pés.

«Tenho a infelicidade de pertencer a uma familia nobre e desde a minha mais tenra infancia me decidi por um militar que servia com honra em um dos regimentos do Porto. Se elle não tinha fortuna tão brilhante como minha familia, possuia todas as boas qualidades que caracterisam as almas nobres. Por um caprichoso orgulho, que não póde soffrer as virtudes puras (porque lhes ignoram o preço e os encantos) oppõe-se minha familia fortemente á minha escolha, prevenindo nossas vistas definitivas de um casamento occulto; e, conhecendo bastante a firmeza de nossos desejos, meus parentes solicitaram e obtiveram uma ordem para que o meu pretendido passasse á America. Este injusto procedimento feriu sensivelmente a minha delicadeza e reputação.

«Empreguei todo o poder que eu tinha sobre o espirito do meu esposo, obrigando-o a voltar clandestinamente a este reino, assegurando-lhe a minha mão e a minha fé. Apoz um anno de ausencia, chegou á côrte; lançou-se aos pés do throno, e foi recebido pelo virtuoso principe com a maior affabilidade; porém, o ministro de estado impediu a conclusão de tão ditosas esperanças, forçando meu esposo á cruel necessidade de se esconder dos seus perseguidores que o espiavam em toda a parte para satisfazerem o seu antigo odio e incompleta vingança. Em quanto elle se foragia no seio de sua honrada familia, eu fui por meus parentes forçada{29} a receber outro esposo. Resisti. Não pude. Abracei o ultimo partido que me restava para subtrahir-me ás suas violencias. Abandonei a casa de meus algozes e acolhi-me aos pés da cruz. Ahi mesmo a minha desgraça amparada nos confortos da religião, foi diffamada de astucia. Deu-se-me um Recolhimento de orfãs, onde até as lagrimas me eram empeçonhadas pelos conselhos brutaes das minhas directoras, que me chamavam á penitencia por ter amado um homem pobre em quem Deus influira as virtudes mais bellas e caracteristicas do seu divino creador; mas, Senhor, como n'aquelle Recolhimento os meus gritos de desesperação me dessem o triste semblante de louca, a commiseração dos meus parentes enviou-me a umas torturas novas n'este convento de Santa Clara, d'onde, banhada em lagrimas, estou escrevendo a V. Ex.ª

«Apezar dos espiões, ameaças e insultos, eu conseguira remetter ao meu consternado amigo uma procuração que devia servir ao nosso casamento, consentido pelo arcebispo de Braga. Quando, porém, os meus parentes souberam que este acto se havia praticado em uma egreja de Barcellos, instauraram processo contra o meu esposo com o proposito de o condemnarem a degredo. Exigiram de mim que eu negasse a minha assignatura na procuração, com o fim de o sentencearem como falsificador de firmas; mas eu, invocando o meu amor e a minha honra, achei pequenas e covardes as tyrannias que se augmentaram a ponto de me ser negada a mais necessaria e urgente subsistencia. As queixas de{30} meus irmãos chegaram ao throno; todavia, apesar do valimento de tão poderosos inimigos, não quiz sua alteza real que meu esposo fosse castigado sem ser convencido. A innocencia d'elle ia ser patenteada, e por tanto destruida a opposição da minha familia, quando a partida do regente para o Brazil, nos deixou outra vez expostos á furia dos nossos perseguidores. É fortissimo o partido d'elles. O snr. Br**, nomeado membro da regencia, e outros fidalgos parentes de minha mãe, me fazem tremer pela nossa sorte. O nosso triumpho está sómente reservado a um poder superior. Só um general de Napoleão, immortal como elle, poderá salvar-nos, libertar-nos e unir-nos. Este prodigio de grandeza de alma é proprio de V. Ex.ª; é uma das maiores victorias do Anjo que já está gosando a immortalidade no nome que ellas lhe deram.

«Dignae-vos, pois, Senhor, em nome de tudo que ha sagrado, ser o protector de dois amantes desgraçados, que a vossos pés imploram uma graça que lhes será a elles a suprema felicidade. Uma palavra só que vos digneis proferir a nosso favor, a iremos de joelhos agradecer, beijando-vos mil vezes a mão que nos abriu o céo; ao mesmo tempo que em nossas almas, Senhor, sereis adorado como homem a quem Deus conferiu poder de nos resurgir da morte, se tal vida não é mais digna da vossa commiseração...»

Esta carta foi vertida para francez por Vidal, ajudante do general Tiebau, coadjuvado por outro que depois se fez conhecido no mundo scientifico, chamando-se{31} Geofroi de Saint-Hilaire. Este, egual no talento e na sensibilidade, leu a carta a Junot, internecendo-a de pauzas e modulações, tendentes a mover o peito do soldado pouco affeito a commoções dramaticas.

D. Antonia de Portugal recebeu da mão de Vidal a seguinte resposta:

«Madame. A innocencia opprimida não se dirige inutilmente ao representante do Grande Napoleão, cujo poder abrange o mundo, e cuja justiça se distribue por vassalos e reis. Ordeno que se vos dê liberdade e passaporte para Lisboa. Vinde alli, e de lá ser-vos-ha facil fazer sahir dos carceres do Porto o ente que vos interessa, e que, como vós, ha sido a victima do orgulho de um ministro. Eu vos protegerei a ambos. Tenho a honra de ser vosso muito humilde e obediente servo—Junot[[2]]{32}
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