Venceslau, por affecto a D. Anna Vaz e ao commendador, quiz reintegrar o homem a quem chamava ainda amigo, desculpando-lhe a queda com os fumos da lisonja em que o haviam aturdido as familias da alta nobreza com quem elle se relacionára, já por parentesco{246} de sua mulher, já porque assim cuidava sanear o aleijão de um baixo nascimento. O generoso fidalgo beirão perdoava esta miseria ao filho do lavrador de S. João de Nogueira, cujos primeiros amores já denotavam aspirações levantadas.

Eduardo, porém, rejeitou a valiosa intercessão do amigo, declarando que não queria nada de constitucionaes nem de absolutistas; que não tinha fé nas virtudes civicas de quem quer que fosse, nem sacrificaria a sua dignidade nas aras profanadas de algum idolo. Venceslau sorriu-se áquella negação das virtudes civicas, e de si para comsigo entendeu que Eduardo era um louco, subordinado ao influxo d'algum astro funesto.

Entretanto, o viver do marido de D. Anna Vaz, na sociedade que lhe admirava o talento, a reconsideração de ideias, e os discursos ora scepticos, ora enthusiastas; que lhe admirava tambem a figura, aureolada pelo romanticismo da sua mocidade—o viver de Eduardo Pimenta em meio de espiritos arrogantes, mas ineptos, era o que as lagrimas de sua mulher davam a entender.

Eduardo tinha lido os poemas de Lord Byron. Admirava com inveja aquelle feito e refeito heroe da eterna legenda, onde á volta de um homem fatal se acatovellam dezenas de mulheres a amal-o, a chorar e a morrerem de amor. O dom João fervia-lhe nos miolos, aquecido um pouco pela temperatura calida do sangue, e bastante pelo fogo da phantasia. Isto de phantasia era coisa pouquissimo vulgar em portuguezes d'aquelle tempo, se elles não haviam corrigido lá fóra a sua compleição,{247} prevertendo a boa indole de frades com que até aquelle tempo toda a gente nascia em Portugal—indole provavelmente devida á preponderancia que exerciam os frades no phenomeno das reproducções, psycologicamente fallando.

Allucinado, pois, pelo seu modêlo poeticamente immoral, Eduardo, com quanto não immolasse illustres victimas, e já encontrasse muitas sem sacrificadores, ganhou fama de bem-quisto de senhoras titulares, e realmente era. Contaram-se n'aquelles annos casos de ciumes palacianos em que elle era o personagem menos irrisorio; arrufos conjugaes, projectados divorcios, reclusões em severos claustros, etc.; mas tudo isto eram atoardas que lhe esmaltavam a reputação.

Este genero de costumes involvia despezas grandes, a pompa no trajar, os bailes, a liberalidade no despender em natalicios, o hombrear com os ricos, e deslumbral-os em lances generosos.

Em menos, pois, de tres annos, Eduardo sem officio nem aptidão para tornar lucrativa a sua intelligencia, gastou os quinze mil cruzados do patrimonio e contrahiu dividas caucionadas pelo futuro dote de sua mulher.

Em 1827, o commendador Vaz dissera a Venceslau Taveira que os seus netos chegariam a mendigar, e sua filha, quando elle fechasse os olhos, teria de vender o leito de sua mãe.

A estima do marido de Julia por Eduardo Pimenta diminuira proporcionalmente com os creditos do seu amigo d'outro tempo. O homem austero não podia desculpar{248} o vadio que, depois de bandear-se com os fautores do absolutismo, rejeitára petulantemente o perdão e o emprego, para se andar a fazer praça escandalosa das serodias verduras de rapaz solteiro, com o enfatuamento de homem de boas aventuras. Poucas visitas se faziam reciprocamente; mas d'esta omissão dera o exemplo D. Anna Vaz.

Ainda assim, Venceslau informado pelo commendador, procurou assiduamente Eduardo, instando-o a empregar-se, a cahir em si, a cortar relações que o abysmavam, e a pensar no futuro de seus tres filhinhos, lavados pelas lagrimas da mãe.