A commoção do reprehendido parecia sincera, quando elle se prestou a servir a nação, a quebrar os encantos da sua aziaga estrella, e a restaurar em fim a honra e a felicidade da sua familia.

Amiudaram-se então as visitas de D. Anna, instigadas já pelo marido, que a movêra pela dependencia em que estavam do deputado, já pelo pae que inteiramente ignorava os despeitos da filha, e por amor d'ella e dos netos lhe aconselhava acolher-se ao valimento de Venceslau.

N'este tempo D. Julia tinha dous filhos, ambos meninos, entre tres e cinco annos. A vida domestica, bem que estrellada pelos dous anjos, parecia-lhe escura. A pouco e pouco, o marido, cada vez mais enredado na politica, lhe fôra obrigando suavemente o animo a conformar-se com os deveres de senhora de casa, e a desligar-se da intimidade dos parentes.{249}

D. Julia rica, festejada, sedenta de competir em fausto com as damas de mais voga, reagia surdamente aos affectuosos conselhos de Venceslau. Elle, porém, com habil descrição, ia cedendo ás menores exigencias, e cortando n'estas até a reduzir ao orgulho de não fazer nenhumas—orgulho onde se levedam fermentos de amarissimos resultados.

Casos politicos de importancia um apenas alterou o monotono, mas agitado, duello do liberal contra a tyrannia. Em 1824 foi convidado pelo ministro dos negocios estrangeiros, marquez de Palmella, a ser o secretario particular, o collaborador dos seus notaveis actos diplomaticos. N'aquelle anno, operou D. Miguel o movimento de 30 d'abril, que ficou na historia conhecido pela Abrilada. N'esse mesmo dia foi preso o marquez de Palmella e com elle o seu secretario, á ordem do infante, por intermedio do intendente Belforte; mas já no dia 5 de maio o ex-ministro e Venceslau eram soltos, graças ao corpo diplomatico.

Repostas as coisas no antigo estado, com a sahida do infante no dia 13, Venceslau alcançou empregar Eduardo na secretaria da guerra, abonando-lhe a lealdade, bem que o commendador o quizesse exonerar de tão perigosa fiança.

N'este em meio, o ar de renovada estima que parecia reatar os corações das duas senhoras, emborrascou-se outra vez. D. Anna Vaz valia-se de desculpas com o pae para não seguir o marido a casa de Julia; esta, sem queixar-se ao marido da ausencia da sua amiga, dizia{250} que D. Anna era muito mais affectuosa quando Eduardo carecia de emprego.

Quaesquer que fossem os juizos de Julia, havia um sinistro esculca, de carrancudo aspecto, que parecia querer-lh'os escutar no silencio da alma: era o padre Manoel Ferreira.

Este previsto sabio andava sobre brazas desde que vira o antipathico Pimenta frequentar de novo o palacio das Amoreiras, bem que nunca só, nem a horas desacostumadas, mas sempre acompanhado da esposa, ou quando Venceslau era certo em casa. Se, relançando a vista ardilosa entre Julia e Eduardo, cuidava ter colhido um gesto intencional de ruim sentido, a raiva esbravejava-lhe nos olhos, e as comichões do nariz eram taes que lh'o avermelhavam como irrupção de bertoeja. Que vira elle, afinal? Dois olhares melancolicos e timidos, duas almas silenciosas a confidenciarem-se os seus sombrios destinos.

Ah! mas que dupla vista a do padre!