—Não gastemos exclamações, minha senhora. Eu não sou capaz de accusal-a sem a certeza de que V. Ex.ª é criminosa. Respeito-a na queda, porque a conheci e amei na pureza dos anjos. Não sou ecco de calumnias. Sou uma das pessoas que tem o segredo da sua desgraça. As altercações são inuteis, são extemporaneas. Não percamos tempo. Responda, snr.ª D. Julia: afóra a creada, que sahiu d'esta casa, e eu que brevemente sahirei, quem sabe esta grande desgraça? Quem viu aqui entrar, a horas desencontradas de seu marido, esse ingrato e infame homem?
—Ninguem...—balbuciou D. Julia, tapando o rosto com as mãos. Depois, sacudindo a cabeça com impetuosa colera, perguntou:—A quem devo eu a desgraça? quem fez este casamento?... quem me aconselhou a victimar a minha liberdade a um homem que me fez envelhecer em contacto com o gelo da sua alma? Eu não precisava de um sabio, snr. padre Manoel, para ser feliz. Deixasse-me estar solteira, que eu era virtuosa...
—Tudo que fiz, minha senhora, V. Ex.ª m'o auctorisou... Não discutamos... A minha razão perturba-se,{253} e eu depois receio que a snr.ª D. Julia não tenha um amigo que a salve. Se a consciencia me arguir de ter eu sido o agente d'este casamento, e eu não podér combatel-a, creia que morro de dôr, de vergonha e remorso. Não me diga tal, que me obriga a ajoelhar diante de seu marido a pedir-lhe perdão de lhe haver dito que V. Ex.ª havia de ser honrada como sua mãe.
—Virgem Maria!—exclamou anciosa D. Julia.—Não faça isso... pedem-lh'o os meus filhos...
—E não lhe pediram seus filhos que fosse honesta?...—replicou severamente o capellão.—Ter dois filhos, dois anjos da guarda, dois amparadores, affectos tão grandes com que encher a sua alma... ter dois filhos... e resvalar por entre elles á voragem!...
—Olhe que me despedaça!...—murmurou ella, contorcendo-se, em postura supplicante.—Lembre-se de meu pae...
—Seu pae... matal-a-hia... Eu, por mim, choro-a... porque não pude saber isto um dia antes da sua perdição... não pude salval-a eu... a quem seu pae a entregou...
Padre Manoel arquejava, debulhado em pranto, fincando os pulsos na fronte.
—V. Ex.ª... a snr.ª D. Julia...—proseguiu elle—aquella menina que eu adorava... está ahi... polluida... por quem, meu Deus?... Onde aquelle scelerado veiu continuar as devassidões das alcovas em que achou já perdidas as mulheres... V. Ex.ª... a esposa{254} de Venceslau Taveira... amante do miseravel esposo da sua infeliz amiga D. Anna Vaz!...
D. Julia, mortalmente pallida, sentou-se, expedindo um ai gemente, um som rouco das valvulas do coração, como se o sangue lhe confluisse a torrentes. Não seria facil decidir se era remorso, se vergonha, se colera: seria tudo a um tempo.