Aproximou-se o padre, tomou-lhe a mão fria, e disse-lhe com brandura:

—Olhe que só Deus é testemunha do que eu lhe disse... Eu hei de sahir d'este mundo sem a denunciar... Reanime-se, que eu não hei de ser-lhe peor algoz que a sua propria consciencia... Eu vou sahir d'esta casa... porque a presença de seu marido, d'hoje em diante, seria para mim o maior tormento... Não posso encarar aquelle honradissimo homem... vituperado, trahido... e por quem?... Ó meu Deus—clamou elle pondo as mãos—porque não me déstes o beneficio da morte antes d'esta horrivel certeza!

D. Julia soluçava, debatendo-se, ora afogando as faces nas mãos, ora erguendo-as supplicantes.

E o padre, contemplando-a n'aquelles desesperados movimentos, disse:

—Eu cuidei que o crime endurecia mais a coragem para lhe affrontar as consequencias. Pois nunca previu o remorso? Não conhecia o homem que a chafurdou na lama das libertinas das suas sordidas proezas? Não o comparou com seu marido?{255}

Estas phrases duras e hervadas batiam tão pungentes no peito da atormentada mulher, que o padre, olhando-a já compassivo, imaginou vêr-lhe no rosto a lividez cadaverica da mãe que morrêra thysica.

Acercando-se então d'ella com brandura e lagrimas na voz, continuou:

—Snr.ª D. Julia, peço-lhe emenda de vida... Não sei que mais possa nem deva pedir-lhe. Promette-me, senhora, promette nunca mais...

Foi n'este passo interrompido o padre por um gesto afflicto de Julia.

No mesmo lanço do rez da casa do archivo, estava o páteo da casa, onde, n'aquelle instante, soavam uns passos que ella reconheceu.