Eram cinco horas da tarde.

O lacaio foi encontrar-se com Eduardo Pimenta debaixo dos arcos das Aguas-livres.

Deu-lhe a carta, em que Julia concisamente lhe pedia que não a procurasse, mas lhe escrevesse a referir-lhe os acontecimentos domesticos d'aquelle dia. Á intimação positiva de lá não ir, nenhuma explicação ajuntava.{266} «Elle—concluia a carta—escreveu-me agora, dizendo-me que só vem á meia noite; mas eu estou muitissimo assustada. Não venhas.»

Eduardo pesou as apprehensões de Julia, e não lhes achou gravidade. O creado esperava alguma resposta vocal.

—Não digas nada á senhora—ordenou-lhe o generoso confidente—mas ás dez horas abre-me a porta da cocheira; e, depois que eu lá estiver, então irás dizer á senhora que eu entrei.

Dito isto, foi ao Hotel de França, na praça dos Romulares, saboreou os acepipes do condimentoso jantar, digeriu-os em alegre palestra com os convivas, conversou das logrativas lorettes de França, das alabastrinas mulheres de Londres, das morenas de Sevilha, das pallidas de Lisboa, e fez-se ouvir e invejar dos admiradores de seu espirito e das famosas aventuras.

Ás nove horas e meia, carregou pela quarta vez o seu cachimbo de procelana e ouro, apertou a mão dos discipulos e sahiu.

Ás dez entrou na estrebaria do palacio das Amoreiras, e enviou o recado á fidalga, quando ella estava no seu quarto contemplando os filhos adormecidos.

Por volta das onze, padre Manoel Ferreira, cujos aposentos nivelavam com o jardim, ouviu que lhe batiam mansamente na vidraça de uma janella. Collou o ouvido ás portadas interiores, e perguntou assustado quem era.{267}

—Abra a janella, padre Manoel—disse Venceslau a meia voz.