—Não queira vel-as... não queira... Mas, meu pae, olhe que o Venceslau mata Eduardo... Acuda aos seus netos...
O commendador fitou na filha os olhos chammejantes de odio, que raiára de sangue o alvor do spasmo, e murmurou:
—Se o matar... matou o mais infame dos homens... porque matou o assassino da felicidade, da honra e do futuro do seu bemfeitor...
—Mas...—insistiu Anna com as mãos postas—mas eu amo-o... eu quero que elle viva... fugirei com elle e com os meus filhos para onde o pae quizer que vamos... Deixe-me ir a mim procural-o...{265}
—Não sahirás d'esta casa... Não sei se é sangue, se lodo que te gira nas veias... Não sahirás d'esta casa, Anna!... e se teu marido aqui voltar, quem o mata... sou eu!
Simultaneamente com a prolongada lucta entre o velho inflexivel e a dilacerada alma d'aquella santa, recebia D. Julia este bilhete do marido:
«Juliazinha, era uma tormenta de ciumes que deixei abonançada. Não te dê cuidado. Depois d'estas borrascas, reponta no céo dos amantes a serena claridade. O ministro mandava um correio procurar-me, quando eu chegava a S. Roque, já de volta para casa. Tive de retroceder, e sei que tenho tarefa até á meia noite. Não esperes por mim. Janta. Se eu podér desembaraçar-me, irei; mas não poderei, porque ha reunião de deputados no ministerio dos negocios estrangeiros. Adeus, querida. Teu V.»
D'esta carta, assim placida e amoravel, transluziu-se no animo alvoroçado de Julia receio e desconfiança.
Deu-se pressa em escrever com febril agitação. Chamou um lacaio, confidente unico, e deu-lhe uma carta.