Entre as hombreiras da porta estava Venceslau com uma pistola empunhada.
Julia, já de pé, soltou um grito estridulo, e fugiu para o quarto onde estivera contemplando os filhos.
Eduardo, ao levantar-se, fêl-o como de um salto de cadaver sacudido pela electricidade: tão de morto era a amarellidão do seu terror! Ergueu os braços inteiriçados. É impossivel conjecturar se o impulso d'aquelle movimento de indefinivel agonia era aggredir ou supplicar. A pederneira da pistola estalejou na cassoleta. Um dos braços de Eduardo retrahiu-se, e a mão, batendo rija no lado esquerdo do peito, parecia querer reprezar a vida no ponto onde entrára uma bala. Rodou meio giro sobre si, amparando a fronte na outra mão; e, resvalando pela espalda da cadeira onde estivera sentado, cahiu vasquejante.
Venceslau atravessou a salêta, e parou no limiar da alcôva.
Os meninos tinham acordado ao troar do tiro. Estavam sentados na cama, espavoridos, com os loiros cabellos riçados em anneis, e os olhos spasmodicos, brilhantes, fitos na mãe que os abraçava, e escondia o rosto entre elles.
—Não se aterre, senhora!—disse serenamente Venceslau.—Olhe que não morre... Essas creanças não tem pae... é preciso que tenham mãe... Se fossem meninas,{269} se d'essas creanças podessem fazer-se mulheres, seria misericordioso estrangular as futuras herdeiras da sua infamia... Viva... peça a esses dous innocentes que a defendem da morte do remorso... E, se elles algum dia lhe perguntarem pelo pae, diga-lhes que as mulheres perdidas não sabem quem é o pae de seus filhos...
O homicida atravessou a salêta, relançando um olhar inexprimivel ao cadaver.
Quando sahia, viu o padre, que difficilmente se tinha em pé, com as mãos postas para elle.
—Snr. padre Manoel—disse o marido de Julia—tenha a bondade de procurar ámanhã no Limoeiro o assassino Venceslau Taveira.{270}
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