—Snr. Pedroza—disse Venceslau.—Vi um homem na ante-camara de minha mulher. Matei-o. Não sei se era o crime que o levou alli, se a intenção do crime. Matei-o. Eu era amigo d'este homem, amigo de dezeseis annos, valedor nas suas miserias, consolador nas suas lagrimas. Matei-o, porque o tinha amado como os infelizes bons amam os infelizes bons e máos.
—Snr. conselheiro—disse o corregedor.—Nós fômos companheiros no desterro. V. S.ª tinha dois amigos: um era Antonio Vaz que lhe morreu nos braços; o outro era...
—Matei esse...—atalhou o homicida.
—Bem morto...—murmurou o juiz.
—A justiça me julgará.
—Está julgado; mas fuja... cá o livraremos.
—Não fujo. Dê-me V. S.ª um mandado de prisão para me eu apresentar ao carcereiro. Desde o momento que me accusei ao executor da lei, estou preso.
O corregedor abraçou-o, dando livre curso ás lagrimas.
Como não tivesse áquella hora escrivão que lavrasse o mandado, escreveu ao carcereiro, enviando-lhe o preso que deveria ser hospedado em sua casa.
N'aquelle tempo os ministros criminaes podiam ter{274} d'estes rasgos, sem receio que a imprensa lhes lembrasse a egualdade dos criminosos perante a lei.