Venceslau não pôde reter as suas; porém, se o padre queria abrir ensejo de conversarem sobre os successos d'aquella noite, era estorvado por um gesto afflicto.

Não obstante, o capellão pôde dizer que D. Julia tinha sahido ás duas horas da manhã com os filhos para a sua quinta da Ericeira, e que não deixára ordem nenhuma a respeito da casa.{275}

—De mim não tem ordens a receber, snr. padre Manoel—acudiu Venceslau.

—Pois de quem?

—Essa pergunta diz mal com a sua provada honra. Na casa, onde V. S.ª é capellão, deixei uns poucos de livros, que receberei, porque são os utensilios do meu pão de cada dia. Recebel-os-hei porque sou pobre; e porque a Providencia me ha de defender com elles a razão, e corroborar a honra.

—Mas os seus filhos...—balbuciou o padre.

—Silencio!—interrompeu Venceslau.—Por piedade, calle-se... e deixe-me! Que novo inferno me vem trazer aqui!... Meus filhos!... Filhos d'ella, sim, padre! filhos da mulher a quem eu deixei um cadaver, sobre o qual, ella... e elles... podem rezar suffragios por alma de... seu pae!

—Oh! por Deus!... Essa suspeita é horrenda... e injusta!...

—Basta!—bradou Venceslau.—Vá, snr. padre Manoel, que me está despedaçando...

E levou-o até á porta impellindo-o com quanta brandura cabia na delicadeza, incompativel com o arrebatamento.