Apoz longo tratamento, vae-se aquelle homem só, pobre, cercado de incertezas e perigos. Ninguem sabia indicar-lhe o destino de D. Antonia. Os amigos negavam-se a acoital-o da sanha da plebe. Por sobre tantos desamparos, a pobreza antepunha-lhe uma cadeia de adversidades, por entre as quaes lhe transluzia a consoladora ideia do suicidio.

O pae de Eduardo era portuguez de marca maior, entranhas nacionaes, ferventes de nacionalismo e odio ao filho amaldiçoado que se bandeára com jacobinos.

Quando, pois, Eduardo, disfarçado em almocreve, lhe appareceu á beira do leito onde o velho se esperguiçava nos regalos de quem dormiu somno de justo, repulsou-o{38} com vociferações dignas dos paes romanos que sentenciavam os filhos á morte, e mais dignas ainda do proverbial amor patrio dos bracharenses.

—Fóra d'ahi, herege!—exclamou o ancião, estirando os braços á cara do filho.—Pegaste em armas contra a nação de Affonso Henriques—proseguiu o honrado portuguez com ira azedada pelas reminiscencias historicas—tu! jacobino! ousaste desembainhar a espada contra a tua patria! contra a patria de Affonso Henriques, que venceu cinco reis mouros, com auxilio de Jesus Christo, que lhe fallou no campo de Ourique! Vae-te da minha presença, maldito, em nome do Padre e do Filho e do Espirito Santo! Não me tornes a pôr o pé em casa, sem te limpares com uma confissão geral, impio, atheu!

Aturdido pela apostrophe e coberto de lagrimas, Eduardo ajoelhou, referindo os infortunios que o levaram por necessidade e gratidão a servir o seu libertador. Com o soccorro da mãe compadecida, conseguiu commover o velho até ao extremo de prometter-lhe não o denunciar á justiça, com a clausula de que iria sumir-se nas Alturas de Barroso em casa de parentes.

Foi; mas poucos dias permaneceu na soledade agra de uma serrania onde o desejo de morrer o debruçava sobre os despenhadeiros, implorando á sua desgraça a coragem do suicidio. A coragem! Porque não hei de, acostado a moralistas de grande tomo, chamar-lhe antes cobardia? É porque ha mister enorme coração quem dentro d'elle se abre um tumulo. É porque vae esforçada{39} valentia n'isto de um infeliz se aniquilar com a certeza de que em vez de lagrimas, lhe pesará sobre a memoria a censura dos felizes, o horror dos espiritualistas catholicos, e a nota da demencia—suprema injuria a essas pobres almas que a divina justiça não mandaria ás penas eternas sem lhes descontar os terribilissimos paroxismos, aquelle tormentoso debaterem-se nas prezas da desgraça, aquelle relanço d'olhos ao céo e o grito d'alma n'esta dilacerante pergunta: «Quando te pedí eu a vida, ó Creador?»

Eduardo desceu um dia das Alturas de Barroso e entrou no Porto demudado e vestido por maneira que o não poderiam suspeitar. Acercou-se do páteo de um irmão de D. Antonia de Portugal, e conversou com os palafreneiros, occasionando perguntar novas da fidalga. Disseram-lhe que ella estava em um convento de Coimbra, onde a encerraram depois que o marido acabára na batalha de Vimieiro.

Dias depois, n'aquelle anno de 1809, o marechal Soult entrou no Porto. O capitão vestiu a farda e apresentou-se ao general.{40}
{41}

[IV]

Il est plus glorieux de tomber généreuse,
D'embrasser en partant ceux qui nous font souffrir,
De fluir sans remords, comme une femme heureuse.

MAD. GIRARDIN.—Poésies.