Prescinde o leitor que lhe historiem os sabidos desastres do exercito francez até ao dia em que Massena, o abatido «anjo da victoria», entrou em Coimbra.
Eduardo Pimenta correu á portaria do convento, e perguntou por D. Antonia de Portugal, a quem desde o Porto enviára cartas repetidas que nunca ella recebeu das religiosas, testemunhas impassiveis do lucto da supposta viuva e dos trances de agonia tão demorada.
Quando o official perguntou por sua mulher, a porteira, tremente de pavor, disse que a snr.ª D. Antonia estava moribunda. Lançou-se Eduardo contra a porta, com supplicantes lagrimas, já a repellões de raiva, bradando que lh'a abrissem. As freiras terrorisadas capitularam em avisar a reclusa de que seu marido a procurava.
Estava D. Antonia, senão moribunda, prostrada nos ultimos esvahimentos de pthysica. Disseram-lhe que a{42} buscava seu marido, e ella cuidou que ouvia uma voz a dizer-lh'o, como tantissimas vezes a ouvira nos seus delirios, antes que as ultimas golfadas de sangue a privassem do prazer de delirar. Mas, como aquella voz se repetisse por bocca de algumas religiosas que mais caritativas lhe velavam a enfermidade, Antonia sentou-se de golpe no leito, e circumvagou pelas faces de tantas mulheres os olhos torvos, não de lagrimas, senão do véo da morte.
Entendeu-as, convenceu-se, acreditou, porque a Virgem celestial lhe tinha segredado que seu marido não era morto. As madres, com quanto crendeiras em raptos e visões asceticas, julgaram-n'a delirante quando a viram ajoelhar com muita fadiga, e contemplar a imagem da Senhora das Dores, á qual dizia com anciosas intercadencias: «Fez-se o milagre, Mãe Santisssima! Eu bem vi que os vossos labios se moveram hontem, quando eu me arrastei até junto de vós. Elle vive!... mas eu... vou morrer... morro n'este instante, ó consoladora dos afflictos, se me não daes algumas horas de vida em troca de tantas dôres, e de morte tão custosa nos meus annos, com tanto amor e esperanças a morrerem comigo! Outro milagre, Senhora! Deixai-me vêl-o... vêr o meu esposo!..»
E orou uma prece inaudivel, com sorriso de esperança a embellecer-lhe as lagrimas. Depois, lançou-se do leito aos braços d'uma religiosa, exclamando:
—Não morro... não quero morrer assim! A Virgem Santissima quer que eu expire abençoando todos{43} os algozes, e beijando todos os instrumentos das minhas torturas... Chamem as pessoas que mais me despedaçaram... Eu quero chorar nas mãos onde houver signaes de sangue do meu coração... Vistam-me... amparem-me... E, se eu morrer agora, levem-me assim morta onde estiver Eduardo, ouviram?
Balbuciadas poucas mais palavras inintelligiveis, D. Antonia inclinou a face ao seio de uma noviça, e immudeceu, ressumando da fronte e das palpebras um suor frio.
—Estará morta?!—perguntavam-se as freiras quando nos dormitorios do convento reboava grande alvoroço de passos e gritos.
Os sacrilegos e algum tanto romanescos officiaes francezes, que tinham acompanhado o seu camarada ao mosteiro, não lhes soffrendo o animo a demora da reclusa e a impaciencia do esposo, intimaram arrogantemente a porteira a franquear a porta. Como ella se negasse, esconjurando os depravados hereges, e sacudindo o hyssope da agua benta contra as paredes, uns francezes espadaúdos pozeram hombros contra as portadas em quanto outros escavacavam a roda a cutiladas, ou esgarçavam á ponta de sabre o crivo dos palratorios. Desacatos tamanhos e tanto para lastima eram crime vulgar e habitual em taes sujeitos, vezados desde 1792 a profanarem conventos e a matarem freiras, principalmente as velhas.