Passadas de sensato horror, as religiosas abriram a porta. Eduardo foi quem primeiro transpoz o limiar{44} d'aquelle pombal de aves do empyreo, que apenas tinham de mulheres o receio de serem tratadas menos ao espiritual do que se usa com as jerarchias celicolas. Era, ao mesmo tempo, mavioso e compungente vêr como aquellas abelhas da divina ambrosia volteavam e zumbiam, ao darem tento dos zangãos francezes! Se, por mofina sorte, colmeia tão do céo, favos amellados com essencia de quantas flores perfumam cenobios de noviças, se—diga-se ao claro—aquellas raparigas cahissem nos colmilhos de tamanhos canibaes, com que vergonha nacional e minha não contaria eu aqui o escandalo!

Ainda bem que o decoro d'esta minha terra, n'aquillo como no restante, ha sempre uma providencia que o salva illeso.

As freiras, pelo menos, salvaram-se d'aquelle inferno que lhes andou a chammejar por perto dos véos e dos escapularios; todavia, o alarido e corrimaças que ellas faziam no claustro, accusariam de incontinentes os gallos, (aqui a palavra gallos não é contingencia de capoeira) se ellas mesmas não confessassem depois ao bispo e ás familias que os camaradas de Eduardo Pimenta haviam procedido mais castamente do que era de esperar de atheus, sem lei, nem rei, nem roque.

E disseram verdade.

Vem aqui a ponto sahir com uma defeza, embora serôdia, do exercito francez, no tocante a ominosos attentados contra mosteiros portuguezes, segundo consta d'uns poemas calumniosos que ahi correram, quanto javardos{45} correm por lameiraes, e ainda sujam as bibliothecas de alguns collectores de sordicias. Exceptuado o dragão que embaciou o cristallino pudor da menina de Alemquer, não me chegou noticia authentica de outro aggravo feito por parte da França á honra das nossas patricias. É regalo—não é?—poder a gente escrever isto, e, por isto mesmo, asseverar que na construcção das gerações sequentes a 1808 não ha gallicismo notavel que eu saiba. Não obstante, dizem praguentos que as joldas invasoras dos mosteiros arrebanhavam baixellas, pinturas, joias d'arte, e pospunham com desdem joias da natureza, as esposas do cordeiro. Aqui ha acinte menoscabador da belleza das nossas freiras, sendo certo que n'aquelle tempo as havia peregrinas, primorosas, dignas patricias d'aquella Marianna Alcoforado, conventual em Beja, que tão celebrada formosura e espirito deixou na Europa em cartas ainda hoje relidas com dó, admiração, e somnolencia.

Á imitação d'esta deviam ser as cento e vinte que esvoaçavam dos dormitorios para a claustra e da claustra para a cêrca, do mesmo passo que Eduardo e os seus honestos amigos seguiam a porteira em direitura á cella de D. Antonia de Portugal.

Quando o marido da desmaiada senhora assomou á porta, as freiras conclamaram tão rijo grito que a enferma retranziu-se espavorindo os olhos.

N'este lance, os braços, que a sustinham, eram já os d'elle, cujos labios, crispando estremecidos de angustia, balbuciaram:{46}

—Esposa da minha alma!... Mataram-te... Fui eu quem te matou!... Oh! falla-me, querida filha!... Não me conheces, Antonia?...

Quando esta e outras exclamações iam avocando a razão da pavida agonizante, a prioreza chamou fóra da cella as freiras testemunhas do trance doloroso, e observou-lhes: