Ao principiar da vida, a ignorancia do mal pende á condolencia e amiseração dos que choram. O homem que então nos contrasta a nossa alegria com lagrimas, e os hymnos de graças á Providencia com blasphemias,{52} assombra-nos. Das muitas flores e luz que nos abrilhantam e aromatisam a vida, formamos o reverso espantoso da escureza e avidez do desditoso que nos dá a entrever o mal, nem sequer sonhado nas nossas noites serenas. Então é o compadecerem-se de infantil dó umas almas predestinadas a revezes, abaladas por vaticinios lugubres do seu destino.

Não ha pois fiar-se a gente n'aquella compaixão da heroina de Virgilio que, recordando os seus, se pungia dos alheios males.

São peitos impenetraveis os cicatrisados de muitos golpes. O que ahi está dentro é a sciencia da vida com a terrivel certeza de que o mal é necessario e fatalissimo. Esta sciencia que nos vem por morgadio herdado, obra, não sabemos se divina, se diabolica da serpente do paraiso, dá-nos ares de philosofantes selvaticos, inflexos e frios. As lagrimas com que intentam amollecer-nos são como outras que já choramos sem mais utilidade que vingarmos affogar n'ellas o germen da confiança nos homens, e—quantas vezes!—da fé em Deus. E, se esta sublime palavra, e inenarravel sentimento, DEUS, chega a desluzir-se nos lances em que o invocamos, os affligidos cessem de confiar em nós. Devorem-se, salvem-se pelo despejo ou pelo suicidio, que a religião não lhes alvitra melhores recursos que a philosophia: tanto monta Jesus como Platão. Nem nós podemos encarecer a efficacia dos balsamos que nos coaram ao coração apenas um torpor, a paralysia das faculdades amantes da vida, ignorando-lhe as condições{53} durissimas, o terrivel desdem com que adormecemos debaixo da mancenilha, sem recear-lhe as exhalações homicidas.

Venceslau solicitou a estima de Eduardo, e affeiçoou-se-lhe com estremecida amisade. No fervor do seu affecto, parecia ser elle a providencial indemnisação á desventura do moço repulso dos braços do pae para os braços da esposa moribunda. Raras horas se apartava d'elle, velando-lhe as do repouso, e privando-se da convivencia dos alegres mancebos que se espantavam de tamanha devoção e tão desusado sacrificio a um desgraçado vulgar.

Por março de 1811 retirou o exercito francez de Santarem, perseguido por Wellington. Eduardo, ao entrar em Pombal, abraçou Venceslau, e disse-lhe tranquillamente:

—Vamos ter batalha decisiva. Heide morrer n'ella. Separa-te desde já de mim, que não quero vêr lagrimas, nem ouvir palavras piedosas em meio dos gritos dos agonisantes.

Pouco depois, escaramuraçaram as avançadas dos dois exercitos. Ao primeiro recontro, Eduardo Pimenta, arrancando do pôsto muito distante dos piquetes, embrenhou-se pela selva das bayonetas que retiniam dentro da cerrada bruma da polvorada. Em breve lanço, o impetuoso official cahiu cortado do ferro inimigo, e, quando a nuvem se rarefez, viu á sua beira Venceslau, descolchetando-lhe a farda para examinar-lhe as feridas.{54}

Eduardo, cerrando os dentes, abafava o grito da dôr; faltava-lhe, porém, vigor para repugnar ao curativo.

Um cirurgião francez disse a Venceslau que nenhum dos ferimentos era mortal. O ferido então abriu um riso de raiva á desgraça de sentir-se viver, e murmurou:

—Não sou um desgraçado vulgar...