E, rodeando a vista pelos moribundos roixos dos paroxismos, accrescentou:

—Eram talvez felizes esses que ahi morrem. Um d'elles fallou em sua mãe, e o outro pediu a Deus que lhe amparasse os filhos... Vês, Taveira? A providencia deixa morrer esses, e quer que eu viva, e que por nenhuma d'estas feridas eu possa arrancar a alma da sua cruz.


Não é tão raro morrer quem ardentemente o deseja?

Sei de homens desesperados que se offereceram em alvo, no ponto onde a metralha das pelejas varria as victimas a rôdo. Sei d'outros que procuraram a morte nos focos mais ardentes da peste. Vi uns que romperam contra as lavaredas das casas incendiadas simulando caridade heroica no proposito do suicidio. Vi alguns que se entregaram cegamente á medicina. E não morreram!

A morte praz-se em destillar ás gotas a peçonha do seu calix na garganta onde fervem e affogam soluços,{55} se as lagrimas da saudade derivam sobre o suor gélido da agonia. Foi a morte creada á porta do paraizo, quando a nossa archi-avó comeu o pomo. Creada como castigo, o seu officio é matar, dilacerando; unhar com a ponta da garra um por um os liames da vida, distendel-os devagar, descansando a intervallos, para que a seiva da esperança os reforce, e depois a angustia lateje n'elles em redobro. Como castigo, missão que o Creador lhe deu, a morte seria indigna do seu officio, se nos decepasse de um golpe. As trevas subitas, a paragem do coração, um dormir suave, um esquecermo-nos de tudo—morrer no instante em que tudo bom d'este mundo nos sorria esmaltado de todas as estrellas—seria supplicio condigno do affrontamento que Eva e o logrado marido fizeram ao Creador?

Não. Á morte urgia-lhe, em cumprimento do seu encargo, maior dominio sobre as potencias espirituaes que ella (convence-te, ó razão!) não mata, mas tortura.

Ahi está um coração de pae a arquejar em soluços de moribundo. Ha tres dias que se debate nas ultimas vascas. No decurso d'esses tres dias, ha visto muitas vezes os filhos que o chamam, que lhe affastam dos olhos os cabellos humidos, que lhe enxugam nas faces lividas umas lagrimas onde vae diluida a derradeira claridade das pupilas baças. Pois tres dias não bastam á maceração do holocausto e ás dilicias do sacrificador que sahiu do paraiso com o peccado!? Não. Aquelle homem está assim penando, ha de assim penar mais tres, mais seis,{56} mais nove dias, porque expia pelo corpo vibrante de nevrozes, e pela alma que se revolve em suas lagrimas.

Meu Deus, meu Deus, que triste, que procelloso, que vilipendio vos seria o mundo, se a minha alma só podésse entender vossa força nas dôres, nos medos, na morte, na viuvez, na orphandade, nos ricos sem caridade, nos pobrinhos sem enxerga!

Afaça-se, leitor, obsequiosamente a este meu velho sestro de vagamundear á volta dos assumptos, vestindo as nudezas da ideia com umas roupagens variegadas. É pensão da velhice, e talvez desejo perdoavel de fazer pensar as pessoas que abrem uma novella justamente para não pensarem.{57}