—Que vaes fazer ao teu dinheiro, Eduardo?—perguntou-lhe o collaborador do Astro da Luzitania, rodando sobre a sua banca de trabalho duas peças que havia recebido pelo serviço de um mez.—Empregas esse capital em officio ou beneficio que te renda um passadío modesto?

—Hei-de pensar n'isso...—respondeu desattentamente o outro.—Por ora, assisto á renascença da minha alma, que esteve atrophiada nos regêlos da desgraça. Estou acordando do lethargo, a reconhecer as{64} commoções, as alegrias do viver. O cerebro ha de funccionar, quando o coração lhe radiar o seu calor. Depois pensarei. Mas antes de mais nada... Nós temos contas, Venceslau. Na emigração, tiveste a delicadeza de me dizer que me emprestavas e não davas a subsistencia. A divida principal não t'a pago, que não posso: é a gratidão insoluvel; mas o que é dinheiro quero pagal-o, não só porque devo, mas porque me sentirei melhor na tua presença quando t'o não dever.

—N'esse caso, paga. Não quero que te sintas mal na minha presença—disse Venceslau com semblante sereno e severo.

—Sabes quanto é?

—Não.

—Calcúla.

—Esse calculo pertence á tua pontualidade. É trabalho que está a cargo d'aquelle que, depois da liquidação das contas, se sentir melhor na presença do outro.

—Vejo-te muito sério!—atalhou Eduardo.—Offendi-te?!

—Foste apenas pouco delicado comigo. Eu não sou da especie dos credores que apresentam a conta copiada do livro... Quando em Londres comprava por um schilling um jantar para nós ambos, nunca lancei á tua conta seis pence. Afiz-me a repartir com o irmão; não emprestava ao homem que havia de ser rico. Nunca preví que houvesses de o ser... No meu trabalho não eras tu pequena parte...

—Eu?! que fazia eu?{65}