—Davas-me animo com a tua mesma ociosidade; redobravas-me o goso de cumprir o dever de homem, por ti e por mim. Quanto a esperar de ti retribuição em moeda corrente, não cabia semelhante conjectura no conhecimento que eu tinha da tua indole...
—Ora essa!...—interrompeu pondunorosamente Eduardo.—Então figurei de parasita aos teus olhos...
—Não: figuraste de homem engolfado por abysmos de saudade, amortalhado em luctos de viuvez eterna...—respondeu Venceslau sorrindo.—Quem havia de prever que sahirias do antro da tua dôr, ao fim de oito annos, com o rosto banhado dos resplendores d'um novo dia? Eu, que então me julguei reservado para a suprema angustia de te sepultar envolto no lençol da nossa pobre enxerga, como sonharia esses quinze mil cruzados que te auctorisam a perguntar quanto me deves? Quem diria que nas leiras e montados de teu pae succederia o filho amaldiçoado? Desandou a roda funesta, Eduardo. O teu mau anjo era a pobreza. Repelliste-o para as trevas dos indigentes. Voga affoitamente no mar da vida, que estás em maré de felicidade. Que tregeitos de impaciencia me fazes, meu amigo?.... Tem paciencia; escuta-me. Volta o rosto alegre algumas vezes para o passado. Repara nas lagrimas e angustias em que se desfizeram as tuas illusões. Olha que está uma sepultura de mulher innocente a servir de base ao monumento das tuas recordações. Abre o livro funebre da tua mocidade, e lê os preceitos da experiencia. Toda a desgraça é uma raiz, que se arreiga dolorosamente na{66} alma; porém, lá vem um dia em que a raiz abrolha flores que parecem de planta abençoada: essas flores são o escarmento, o desengano, a verdade, a sciencia da vida como ella é, vista á luz da razão.
—Mas onde vaes tu com essas praticas tão bem discursadas?!—perguntou Eduardo Pimenta, entre risonho e enfastiado.
—Vou entregal-as á tua memoria para que te sirvam de memento, quando escreveres á filha do commendador.
—A filha do commendador? Querem vêr que me entroncas na progenie de D. Juan Tenorio! Temos, pois, uma Anna, a filha do fidalgo de Burgos!...
Venceslau Taveira pôz as mãos nos hombros do viuvo de Antonia de Portugal, e disse-lhe com boa sombra e graça affectuosa:
—Não achas notavel a coincidencia do pae que é commendador e da filha que é Anna?... Dize-me agora: que motivos te justificam da reserva com um amigo de oito annos? Que tinha que eu soubesse da tua bocca esses amores? Dizias-me, ha dois mezes, que o teu coração era o Lazaro apodrecido na sua cova; e, como a ideia de Lazaro envolve a ideia de Christo, o Christo do teu coração defuncto foi o dinheiro. Não dou nada pela vida assim galvanisada por correntes electricas do metal...
Eduardo interrompeu o impertinente amigo com uma cascalhada de riso secco; Venceslau, porém, carregando o semblante, concluiu:{67}
—Nunca te esqueças de que fui eu quem te apresentou ao commendador Francisco Vaz e a sua filha D. Anna. Eu disse-lhes que tu, Eduardo Pimenta, eras homem de bem, e infeliz, sem o haver merecido.{68}
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