[VII]

Desejas conhecer o que és? repara nos outros: tal tu és.

Desejas conhecer os outros? Olha para dentro de ti, que em ti os vês.

SCHILLER.—Poesias.

D. Anna Vaz, a filha do commendador de Santa Christina de Almudena—commendador, entendam, de velha estôfa, aparentado com os descendentes dos Pelagios e Ordonhos—era creança de quinze annos, quasi bella, mas, melhor do que perfeita belleza, era boa, candida, innocente, e triste das saudades de sua mãe, poetica da sagrada poesia que se curva a derramar prantos sobre a urna de umas cinzas queridas.

Venceslau conhecera em Londres um irmão d'esta menina, alferes emigrado, compleição doentia, éthico da enfermidade nostálgica, exacerbada por amor a uma senhora de Lisboa, com quem destinára casar-se, quando os franceses invadiram Portugal.{70}

Falleceu este moço nos braços de Venceslau Taveira, pedindo-lhe que, se um dia regressasse á patria, procurasse em Lisboa seu pae, e lhe pedisse que entregasse á sua promettida esposa o retrato que lhe confiava.

O portador do triste legado cumpriu a vontade do moribundo seis annos depois.

O commendador acceitou o retrato, e voltando-se para uma senhora, que estava ao lado de sua filha no canapé, disse:

—D. Julia, aqui tem o seu retrato.

Venceslau inclinou-se profundamente diante da querida do seu amigo e disse:

—Era V. Ex.ª digna da paixão de Antonio Vaz, porque, se a comparo com o retrato, noto que a semelhança foi já apagada pelas lagrimas. A formosura da mocidade foi substituida pela formosura da mágoa.