Julia, muito commovida, pediu ao portador do retrato que lhe referisse as particularidades da vida e morte de Antonio Vaz. Depois, disse ella que o seu malogrado noivo lhe contava em cartas as virtudes do seu amigo Venceslau Taveira, e os impagaveis carinhos de irmão com que elle tentava suavisar-lhe os espinhos da saudade, alentando-lhe com esperanças o animo quebrantado. Terminada a sensibilisadora reminiscencia das cartas, proferida entre soluços, D. Julia apertou a mão de Venceslau; e, levando-a aos labios, apesar do esforço d'elle, balbuciou:
—Beijo a mão que fechou os olhos do meu extremoso amigo!{71}
Pouco depois, chegou uma sege á porta do commendador, e logo depois entrou um criado a annunciar que era esperada a snr.ª D. Julia de Miranda. Venceslau, obtida licença de Francisco Vaz, deu o braço á dama, e levou-a á traquitana, reparando então que o cocheiro e lacaio vestiam libré, indicativa de familia illustre.
Voltando á sala, contou-lhe o commendador estas admiraveis coisas de D. Julia:
Era filha d'um desembargador do paço, já defuncto. Herdára trezentos mil cruzados em propriedades rusticas e urbanas. Tinha vinte e sete annos de idade, e deixára de ser formosissima desde que a paixão por Antonio Vaz a desfigurou, mostrando-lhe repetidas vezes a morte no seu espelho o semblante cadaverico. Mas contou o commendador que, sem impedimento da decadente belleza, eram muitos os pretendentes á mão de Julia, bem que no pensar do ironico sugeito, muitos haveria que a tomassem por esposa, ainda que ella não tivesse mãos, tão necessarias ás formulas sacramentaes do matrimonio.
Assim começaram as boas e logo familiares relações do escriptor com esta excellente familia. Rara noite Venceslau deixava de visitar o agradecido fidalgo, cujas ideias liberaes a morte do filho perseguido acrizolára. Fugiam as horas de alegre palestra entre os dois, em quanto D. Anna estudava as suas lições de musica, para depois, ao fim da noute, conversar em francez com o jornalista.{72}
Intencionado a divertir Eduardo das suas abstracções penosas, Venceslau apresentou o amigo, depois de prevenir os hospedeiros a favor da tristeza taciturna do homem, que parecia assombrado do raio fulminador da sua mocidade.
Acolheram Eduardo, tanto o pae como a filha, com tanta sympathia e dó que, a poucos dias andados, já o confundiam na familiar lhaneza com Venceslau Taveira. E esta bella alma alegrava-se quando o via tão bem acceito, e já tão outro do que era nas escuras melancolias, pelas quaes elle se havia feito aborrecer de quantos o tratavam.
Algumas noites concorria tambem D. Julia de Miranda, com o seu capellão; homem de avançados annos, e tão amigo da fidalga que dizia idolatramente que não era capellão, mas sim sacerdote d'aquella divindade.
Em um d'esses saráos, desconfiou Venceslau que o seu amigo, abeirando-se do piano em que Julia tocava, lhe passára uma carta. Sobresaltou-o a suspeita, como se o caso tivesse a importancia d'um delicto contra as regras da sã moral. Não espanta semelhante estranheza em homem que rossava pelos vinte e oito annos sem haver entregado carta de amores, nem sequer ter sentido a precisão de escrever uma, no intervallo de dois artigos politicos! A virgindade epistolographica é hoje, e era então mais rara que todas as outras.