—Tal não disse, creança...

—Pois que foi? Eu não entendi...

—Nem admira que não entendas, filha. Vê se percebes o receio de Venceslau: diz elle que o amor de Eduardo morreu com outra que elle amou, e não póde repetir-se comtigo.

Anna fitou os seus fulgurantes olhos nos de Julia, quedou-se abysmada longo tempo na sua contemplação, e, só depois de chamada pela amiga, sorriu com mais tristeza do que se chorára, e murmurou:

—Para que me escreveu elle duas cartas a dizer que me adorava como os anjos adoram a Deus?{78}

—E eu creio bem que elle te adora, minha querida Annica...

—Não digas isso... Dize-me a verdade, porque eu...

—Tu... quê, filha?

—Eu perdi a minha alegria, ando triste, não penso senão n'elle; e antes queria morrer que não o vêr mais...

—Pobre creança!... Não pensei que o amavas assim!—disse Julia beijando-a e acariciando-lhe os cabellos.—Pois filha, tem esperança... As coisas, que disse o Taveira, bem pensadas, importam pouco. Elle entende a dignidade, o amor e o dever de um modo excepcional. Os corações alheios hão de regular-se por preceitos mais faceis e humanos. Se Eduardo te merecer, e teu pae consentir, que tem que cazes com um homem que muito amou outra mulher digna d'elle? Peor seria cazares com outro que houvesse sido mau marido, e quizesse fazer vêr isso como virtude aos teus olhos... Mas... mas se...