D. Julia, enternecida pelo convulso proferir d'estas vozes, não conteve as lagrimas. Era n'este sentir grande parte o admirar, em moço tanto na flor dos annos, um respeito assim fervoroso á consagração do primeiro amor, e holocausto perpetuo e por tanta maneira penoso da alma á mulher amada, primeira e unica.
Vendo-a pezarosa e absorta, Venceslau desculpou-se da crueldade de suas tristes reminiscencias, e derivou a pratica a outros assumptos, ageitando-se-lhe bom lanço com a entrada do commendador.
D. Julia, entretanto, foi ter com a sua amiga que de proposito se affastára para dar logar ás averiguações que tanto interessavam ao seu desassocego.
—Tu vens triste?!—perguntou Anna assustada.
—Triste, não; filha... Venho peor que triste... Não vês que chorei?
—Choraste!... é verdade!... Porque?
—Que rapaz é este Venceslau! Bem m'o dizia teu mano. Chamava-lhe elle o coração de uma creança temperado pela prudencia de um velho sem manchas na sua vida de moço. É assim... é admiravel; mas Deus nos livre que todos os paes e noivos se parecessem com elle em escrupulos e severidade.
—Então que te disse a respeito do Eduardo?... que me não ama?
—Não lhe fiz semelhante pergunta, menina. Apenas me adivinhou a tenção franziu a testa, mudou de{77} aspecto, e reprovou que tu amasses um homem nas circumstancias de Eduardo, viuvo de uma martyr, devastado por essa grande e unica paixão da mocidade, incapaz de fazer feliz a mulher que lhe pedisse amor impossivel; emfim, Annica, comparou-o na sua posição com a minha, para vir a dizer, se eu bem o entendi, que não deves arrancar o coração de Eduardo á saudade da outra desgraçada que lhe expirou nos braços... Fallou-me de teu irmão, e fez-me chorar... Olha, filha, é extraordinario este homem! Eu, quando o ouvia ainda agora, sentia em mim não sei se assombro, se admiração, se profunda sympathia por elle!
—Mas então...—interrompeu a infantil menina, como se as admirações ou sympathias de Julia não diminuissem nada do seu alvoroço.—Disse elle que Eduardo não me ama?