—Porquê?—atalhou admirada D. Julia.—Os intentos, que um amigo esconde de outro, são os máos. Revelar um affecto nobre, honesto e natural, é prova de amisade. Aos inimigos e indifferentes é que taes segredos não se communicam. O snr. Taveira, se amasse a{74} minha amiga, duvidaria revelar tão bom sentimento a Eduardo?
—Se Eduardo me houvesse apresentado n'esta casa, eu sahiria d'ella pretextando um motivo acceitavel, e depois denunciaria a minha pusillanimidade ao meu amigo.
—Santo Deus! como V. S.ª é austero!—voltou sorrindo a rica herdeira.—Não cuidei que do estrangeiro se trouxessem regras de moral tão rigorosas!
Venceslau fitou com desgosto o semblante ironico de D. Julia. Penalisava-o o desconcerto da reflexão, impropria de tal dama, com o primoroso juizo que elle compozera da sua sensatez.
E ella, que se viu encarada com estranheza, sentiu logo beliscado o amor proprio, a fibra sensivel da vaidade de parecer moralmente perfeita.
—Não me parece—proseguiu a dama gravemente—desdourar-se um rapaz que estima uma senhora da casa onde o apresentam. Conheço muitas amigas minhas casadas e virtuosas, que encontraram affeições nobres e dignos maridos em pessoas apresentadas na casa de seus paes. Póde ser que d'outro modo se hajam casado muitas; mas eu, se fosse mãe, estimaria conhecer os noivos de minhas filhas; e, se fosse noiva, preferiria ouvir na sala de meu pae a ouvil-o da janella, para a rua, o homem que houvesse de ser meu marido.
Taveira sentiu-se enredado na dialectica de D. Julia; mas, desatado dos embaraços pouco menos de melindrosos, objectou:
—Eduardo Pimenta ha de ser sempre infeliz. A{75} enorme desgraça da sua mocidade foi repellão de vento que lhe apagou na alma toda a luz das alegrias puras. A sombra d'uma martyr não consente que outra mulher, embora seja um anjo, repouse venturosa no coração onde ella deve ter deixado a sua imagem, como Deus deixou á porta do eden o archanjo da espada de fogo.
D. Julia, maravilhada da ideia e da fórma, ia replicar, quando Venceslau proseguiu, abalando-lhe o animo ás primeiras palavras:
—V. Ex.ª amou ardentemente o meu chorado amigo Antonio Vaz. Elle morreu, e a snr.ª D. Julia, que não era sua esposa nem devia ao amor das primeiras nupcias o honrado sacrificio das segundas, guarda á memoria do homem amado a lealdade que eu respeito e que todos lhe admiram. Ficou V. Ex.ª nova, bella e rica; e d'estes tres dons que raras vezes se conciliam e tão desejados se procuram, fez V. Ex.ª realçar o merecimento do seu holocausto ao amor unico da sua vida, querendo assim que a nobre alma de Antonio Vaz se gose na bemaventurança da religiosidade com que V. Ex.ª n'este mundo se lhe devota. Se a snr.ª D. Julia me permitte o comparal-a, Eduardo Pimenta, está em ponto de maior obrigação e fineza á alma de Antonia de Portugal. O homem que levantou nos braços o cadaver da mulher lentamente assassinada por amor d'elle, não deve mais apertar n'esses braços outra, se a essa tem de render os votos e palavras com que venceu o coração da desditosa que lhe immolou mocidade, gentileza, nascimento, parentes, contentamento, futuro,{76} e até a memoria hoje em dia despresada d'esses que ainda se lembram da martyr para a execrarem.